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Antes pelo contrário

Audiometria: o barato que pode sair muitíssimo caro

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

São, de facto, muito estranhos os números das audiências lançados pela nova empresa de audiometria, a GfK. A RTP com menos um terço de audiência do que tinha até agora significa um enorme desequilíbrio entre os três canais generalistas principais, coisa nunca vista em quase duas décadas de concorrência televisiva. A péssima posição da SIC Notícias, no mercado da televisão por cabo, também não bate certo com os números de sempre e com o impacto indiscutível - e visível - que aquele canal informativo tem. Ou seja, o que os números daquela empresa dizem, além de ser radicalmente diferente de tudo o que até agora sabíamos sobre o mercado televisivo português, não tem correspondência com o que qualquer leigo consegue intuir da realidade.

Ao que parece, esta audiometria tem um "pequeno" problema: os mais idosos estarão subrepresentados. Ponho aspas no "pequeno" porque, se assim for, trata-se de um erro grosseiro que altera drasticamente todos os números. Primeiro, porque Portugal é um País envelhecido. Segundo, porque os consumidores regulares de televisão o são ainda mais. Por causa da Internet, a maior fuga de telespectadores tem sido nos públicos mais jovens. E é exatamente nos mais velhos que essa perda de clientes se fez sentir menos.

A audiometria é um instrumento fundamental para o funcionamento do mercado televisivo. Ainda mais do que o controle de vendas e de leitores é para os jornais. Porque as televisões vivem exclusivamente da publicidade e não têm outra forma de saber qual é o seu mercado. Os anunciantes guiam-se pelos dados das empresas de audiometria. Os programadores também. A credibilidade destes números é condição para um funcionamento regular, saudável e leal da concorrência entre canais.

Acontece que Comissão de Análise de Estudos de Meios (CAEM) escolheu esta empresa tendo um único critério: o preço. Era a que pedia menos. Tão pouco que se devia ter desconfiado. Tão pouco que dois dos concorrentes desistiram logo. Tão pouco que dali não podia vir serviço bem feito. E, como se sabe, o barato às vezes sai caro. E nem o facto da GfK ter ficado, no concurso público, em último lugar nos critérios técnicos demoveu a CAEM. O que deveria ter merecido, logo então, e não depois dos resultados, protesto de operadores e anunciantes.

Os problemas começaram bem cedo, com dificuldades técnicas várias e bastante caricatas. Para além da subrepresentação dos telespectadores mais idosos, o sistema registou espectadores a ver canais pagos quando estes tinham apenas acesso a canais abertos, a ver programas que não estavam a dar no momento, um jogo de futebol com o Benfica sem qualquer espectador durante vinte minutos, espectadores, incluindo crianças, que viam televisão 24 horas por dia, 300 mil portugueses a ver televisão 14 horas por dia, 10% dos portugueses a ver televisão depois das duas da manhã, "canais não identificados" a serem líderes de audiências. São tantos ou tão poucos os erros que a comissão técnica-consultiva da CAEM chumbou a audiometria da empresa, sem que nada tenha, no entanto, acontecido. Junta-se a tudo isto o facto do número de lares com aparelhos de medição ser inferior ao que a empresa se comprometeu no concurso.

Se se confirmarem os erros que se intuem, esta empresa (e quem a contratou) tem ser severamente responsabilizada. Não apenas pelos prejuízo que tenha causado a cada operador (estão em causa empregos, viabilidade de empresas e até dinheiros públicos, por via da RTP), mas pelo enorme dano que terá causado à credibilidade do único instrumento existente para regular o mercado publicitário televisivo. E não vale a pena cada operador definir a sua posição sobre este assunto de acordo com a má ou boa posição que esta audiometria lhe dá. Um mau sistema de audiometria é mau para todos, porque induz programadores e anunciantes em erro. Andar a programar e a anunciar para um mercado fictício é atirar dinheiro para o lixo. E não se pode dizer que a nossa economia, e ainda mais o muito debilitado mercado da comunicação social e da publicidade, se possam dar a esse luxo.