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Antes pelo contrário

As convicções e as provas

Relatório da comissão de inquérito ao caso TVI, que a comunicação social considerou rigoroso, poderá ser chumbado. PS queria que se ignorassem as provas. PSD só queria que se confirmassem as suas convicções.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

O PS vai votar contra o relatório da comissão de inquérito porque lá estão factos: que membros do governo, incluindo o primeiro-ministro, conhecia o negócio quando José Sócrates disse que não (provado por notícias anteriores e por depoimentos de envolvidos); que esse conhecimento também se fez através de pessoas que nada tinham a ver com a PT (provado através de depoimentos); e que houve intervenção do Governo no negócio, quanto mais não seja para o travar.

O deputado Ricardo Rodrigues (o mesmo que, mostrando uma relação imaginativa com a verdade, chamou "acção directa" a um roubo) disse que são tudo calúnias. E que ainda se vai a tempo de corrigir o erro. Ou seja, de ignorar os factos e mentir no relatório.

O PSD pode vir a abster-se. Queria que se dissesse mais. Queria que fizessem acusações sem que na comissão se tivesse produzido prova que as sustentassem. E diz que sem as escutas que o seu deputado Mota Amaral impediu de usar nada disto vale a pena.

Ou seja, o PSD de Pacheco Pereira e de Manuela Ferreira Leite olhava para esta comissão como um mero expediente para divulgar as escutas. E o PSD de Passos Coelho, que tinha ameaçado com uma moção de censura ao Governo se se provasse a mentira, precisava de uma desculpa para abortar a comissão.

O PSD não vota a favor, não vota contra, não propõe alterações e não apresenta um relatório alternativo. Limita-se a enterrar o assunto tentando não ser responsabilizado por isso. Andaram a brincar com o Parlamento, com quem a ele se deslocou para prestar depoimento e com os cidadãos.

Em nenhum dos casos parece haver qualquer interesse na busca da verdade. Esteve bem o Bloco de Esquerda, o PCP e o CDS, que fizeram (através do relator João Semedo, mas também de João Oliveira e Cecília Meireles) o seu trabalho de forma rigorosa e empenhada, aceitando honestamente a prova que ali foi produzida.

Claro que as hostes militantes do centrão continuarão com as suas certezas, independentemente das provas. Mas não é de convicções que uma comissão parlamentar depende. O deputado que escreveu um relatório (que a generalidade da comunicação social que acompanhou os trabalhos da comissão considerou rigoroso no tratamento do material disponível) e os deputados que o irão votar favoravelmente tiveram isso em conta.

Adivinha-se que as suas convicções são um pouco diferentes do que está no documento. As minhas também. Mas, ao contrário do PSD, sabem que convicções não são prova. E, ao contrário do PS, sabem que provas não são uma mera convicção. Nem num tribunal, nem num Parlamento.