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Expresso

Antes pelo contrário

Aristides de Sousa Mendes: ruínas por um herói acidental

Daniel Oliveira

A verdadeira medida da grandeza de um povo, se ela realmente existe, não é o seu passado, é a forma como se recorda dele. Não são os seus heróis, são aqueles que escolheu para o serem. Quando, há uns anos, a RTP lançou aquela tolice de eleger, por telefone, o melhor português de sempre, escrevi que se tivesse de o escolher não optaria por um estadista. Nem sequer por alguém que se tivesse notabilizado por uma luta política continuada. Nem um escritor, nem um intelectual. Escolheria um herói acidental. Alguém que, movido por algo mais instintivo do que qualquer convicção ideológica, arriscasse quase tudo da sua vida. Teria escolhido Aristides de Sousa Mendes. Não era um político. Era um burocrata que nem sequer tinha uma história de oposição ao regime ou de apoio à causa democrática. Muito pelo contrário. E é por isso mesmo que o seu exemplo é tão poderoso.

Escolheria Sousa Mendes porque acho que a história de um homem que foi impelido pela mais pura das decências humanas vale mais do que a de alguém que dedicou toda a sua vida, de forma coerente e corajosa, ao combate à ditadura? Não. Porque o seu gesto teve mais relevância do que o papel de vários estadistas? Para os diretamente implicados sim, para os restantes seguramente não. Porque lhe encontro uma superioridade moral perante os que decidiram dedicar a sua vida inteira ao bem público e não foram empurrados pelas circunstâncias para essa escolha? Também não. Os heróis que escolho são determinados por os valores que quero valorizar, não por eles mesmos. Como bem explicou Hannah Arendt, não é preciso ser um monstro para ser cúmplice ativo da maldade extrema. Basta cumprir ordens e fazer o que é suposto ser feito. Por isso, valorizar na nossa memória coletiva os que romperam com a obediência cega é uma medida preventiva. Sobretudo quando os rebeldes ocupavam postos em que a obediência fazia parte das suas funções e até tinham simpatia por quem lhes dava as ordens.

Somos um povo que foi, durante demasiado tempo, condicionado para a obediência. Um "povo bom", como disse o senhor da troika. E esse tornou-se o nosso maior defeito coletivo. Sem comparação com tragédias do passado, a nossa infinita obediência tem sido bastante testada nos últimos anos. O medo e a chantagem, assim como o canino cumprimento dos nossos deveres com os mais fortes, e apenas com eles, têm sido os principais instrumentos para a nossa subjugação. O que nos falta são extraordinários exemplos como os de Aristides de Sousa Mendes, um burocrata que ousou desobedecer.

A casa de Aristides de Sousa Mendes está em ruínas. Um grupo de pessoas fez um cordão humano para a salvar. E o estado a que estamos a deixar chegar os restos materiais da sua memória é uma terrível metáfora do estado a que estamos a deixar chegar o seu legado moral. Deixar apodrecer a casa de Sousa Mendes é péssimo um recado que damos aos que podem ter em si a semente da rebeldia.

Podemos encontrar o mesmo sinal na entrada da wikipédia que é dedicada a Sousa Mendes. Apesar de largamente documentada, é escrita numa perspetiva exclusivamente depreciativa e até caluniosa para com o cônsul. Não hesita em reabilitar o Estado Novo, escolhendo habilidosamente os factos mais interessantes para a sua tese, omitindo outros fundamentais, tomando uns por verdadeiros e contestando outros, sempre com o objetivo de pintar o retrato de um homem desonesto e vigarista, posto na ordem por um regime com fortes sentimentos humanitários mas empenhado em não permitir o caos. O texto chega roçam o negacionismo, ao relativizar os riscos reais que os judeus corriam se ficassem em França. Como a Wikipédia está aberta à participação de todos, esta entrada diz bem da negligência a que temos entregue a memória de Sousa Mendes. Espero que brevemente um historiador ponha mãos à obra e complete este trabalho insultuosamente parcial. É que a Wikipédia é uma das principais fontes de consulta para muitas pessoas.

Sousa Mendes não era um político. Era um burocrata que nem sequer tinha uma história de oposição ao regime. Era um homem com falhas e erros no seu percurso. Enfim, não estava predestinado a ser um herói. Não tratar da sua memória é dizer a todos os que venham a estar em situações semelhantes à sua que a coragem, aquela que os pode levar a ter a vida miserável que Sousa Mendes teve depois da sua ousadia, nunca será reconhecida. Que não lhes daremos a imortalidade na memória que compense o sofrimento em que viveram pelos outros. E isso é condenar-nos como povo.