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Expresso

Antes pelo contrário

A irracionalidade ao poder

As agências de rating queriam sangue na Grécia. Agora acham que o doente está com mau aspecto. Deixar que sejam estas cotações a determinar a política económica é o mesmo que governar guiado pela gritaria de uma multidão.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

As agências de rating não acreditavam que a Grécia pudesse pagar a sua dívida. Desceram-lhe a cotação. Era necessária austeridade. A Europa impôs medidas ferozes. Tão ferozes que prometem rebentar com a economia grega. E quando muitos o disseram foram acusados de laxismo e de estarem, como a avestruz, a enterrar a cabeça na areia.

Pois bem, as agências de rating estão contentes com o pacote de medidas suicidas: "elimina, de facto, qualquer risco de curto prazo de um incumprimento motivado pela falta de liquidez, e incentiva a implementação de um conjunto de reformas estruturais credíveis e viáveis, que têm um grande potencial de estabilizar as exigências do serviço da dívida para níveis possíveis de serem geridos". E por isso baixaram ainda mais a sua nota. Agora é lixo. Porquê? "Os riscos macroeconómicos e de implementação associados a este programa são substanciais e mais consistentes com um 'rating' Ba1".

Conclusão: está na altura da Europa ser responsável e o BCE emprestar directamente (e não através da banca, que fica com a sua parte pelo caminho) aos Estados. Porque basta acompanhar este raciocínio, onde se diz que estamos perante "um conjunto de reformas estruturais credíveis e viáveis" que aumenta os "riscos macroeconómicos" para perceber que não há racionalidade possível na economia seguindo estas agências sem rosto (nem interesse declarados).

Permitir que sejam estas notações, que nos últimos três anos provaram não ter qualquer base rigorosa de sustentação (vejam-se as cotações que tinha lixo financeiro que quase rebentou a economia mundial), a definir a nossa política económica seria o mesmo que dirigir os destinos políticos de um país guiado pela gritaria de uma multidão ou ao sabor de barómetros de popularidade diários.

Já se percebeu que, faça o que fizer a Grécia, o jogo com a sua dívida ainda não terminou. Ou a Europa trata disto ou o casino trata da Europa. É escolher.