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Antes pelo contrário

A Apple inventou o remédio e depois o veneno

A Apple lançou o Safari 5, que vai esconder toda a publicidade nas publicações online. A mesma empresa que inventou o iPad - o caminho para salvar a imprensa - mata o seu financiamento. É mais grave do que parece.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Sou um fã dos produtos da Apple. Mas a Apple não é um clube. É uma empresa. E uma empresa cada vez mais poderosa. E, como a Microsoft, procura o lucro e nada mais do que o lucro. Por mais genial que seja Steve Jobs - e teve sobre Bill Gates a vantagem de inovar e não apenas copiar ou esmagar quem inventou -, é a essa tarefa que ele se entrega: a de fazer dinheiro.

A Apple lançou recentemente um novo produto. Não estou a falar do iPad ou da nova versão do iPhone. Falo do Safari 5. E este browser tem uma funcionalidade - o Safari Reader - com uma característica particular. A página da Apple explica: "o Safari Reader remove a irritante publicidade e outras distracções visuais dos artigos online. Assim você tem toda a história e nada mais do que a história."

Não estamos a falar dos tradicionais bloqueadores de janelas. É mais do que isso. Trata-se de um programa que pura e simplesmente apaga a publicidade que está em cada página. Ao que se junta o facto importante de um artigo vir todo na mesma página, quando os artigos de várias páginas tinham publicidade em cada uma delas, para aumentar o número de visualizações - que é o que dá dinheiro às publicações.

Dirá o utilizador: excelente ideia. Respondo eu: uma tragédia. Bem sei que o Safari apenas tem quatro por cento do mercado. É mesmo dos produtos relevantes da Apple aquele que menor sucesso conquistou. Mas a empresa de Jobs já provou que, para o melhor e para o pior, mesmo quando tem uma fatia reduzida do mercado, faz escola.

E é péssima ideia porquê? A Internet mergulhou os media tradicionais numa crise sem precedentes. Os jornais estão a perder leitores todos os dias. O efeito é muito mais profundo do que aquele que foi provocado pela rádio e pela televisão. Não vou aprofundar aqui as razões. Elas resumem-se a isto: a Internet dá mais liberdade, capacidade de escolha e interactividade. Permite troca de muito mais informação por muito mais gente do que um jornal unidireccional.

Mas o meio não dispensa o conteúdo. E a informação dispersa pela rede não dispensa o jornalismo. Sobretudo o jornalismo escrito de qualidade. É esse que, garantido por um grupo profissional sujeitos as regras, está nas guerras quando já todos partiram, tem fontes, métodos definidos para a investigação, autoregulação. É esse que escreve as histórias de que a Apple fala.

Com os seus conteúdos na Net, os jornais de referência perderam muitos leitores em papel, muito dinheiro e muita capacidade de investimento. Despediram milhares de jornalistas e desistem lentamente de trabalhos mais caros. Aqueles que nos dão as histórias que depois alimentam a conversa permanente na Net.

Como precisam de menos dinheiro, os jornais populares, que fazem pouca investigação e concentram-se no pequeno escândalo local, sobrevivem. Mas os jornais de referência ou não têm capacidade para resistir ou lentamente se adaptam à pobreza de meios.

O jornalismo de qualidade não é apenas uma questão de gosto ou de escolha. Exige dinheiro: boas redacções, investimento em meses de investigação, deslocações por todo o Mundo. Não se faz um "The New York Times", um "Washington Post", um "Guardian" ou "Le Monde" com trocos.

aqui escrevi que produtos como o iPad, pelas suas características, são uma oportunidade para os media tradicionais fazerem a transição para os novos tempos e recuperarem leitores perdidos. Mas isso não é possível se quem tem a capacidade de distribuir os conteúdos se encarrega de sabotar o seu financiamento. Ou seja, a Apple produz o remédio e o veneno ao mesmo tempo.

Das três uma: ou os jornais online cobram todos os conteúdos, ou põem na rede apenas o acessório como chamariz para o papel ou criam um mercado publicitário sólido para este suporte.

A primeira possibilidade não tem, por enquanto, pernas para andar numa dimensão que trave a morte do jornalismo escrito. O que se cobra aqui logo aparece gratuito ao lado. Sem controlo possível.

A segunda possibilidade tenta apenas adiar uma morte lenta e certa. Os jornais em papel, e não a edição online, é que serão, no futuro, a montra de prestígio de um título de imprensa.

Sobra a terceira possibilidade. Se os distribuidores, que podiam ser um excelente instrumento para embaratecer custos - não há nem impressão nem distribuição física - se encarregam não só de dar aos leitores, de borla, aquilo que custou dinheiro a fazer, mas ainda de sabotar todas as formas de financiamento acabarão por matar o jornalismo.

O que é extraordinário é que seja uma empresa, que vive do lucro, a parasitar o trabalho de outras empresas e a negar-lhes o direito a financiarem-se.

Está na altura dos leitores dizerem que preferem a publicidade nos seus computadores ao fim do jornalismo. A não ser, claro, que os que hoje matam a possibilidade de se produzirem conteúdos os passem a fazer sozinhos de forma profissional. E aí, teríamos o mais preocupante e avassalador de todos os processos de concentração até hoje vistos.

Reparem: não estou apenas a falar de negócios. Sem imprensa profissional e livre - e para ser livre tem de ser sustentável - não há democracia. Não é menos do que isto que está em causa.