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Um equívoco sobre as elites

A democracia que Bolsonaro e Trump põem em perigo não foi uma oferta da elite ao povo, foi uma conquista do povo à elite. Bolsonaro teve percentagens de votos mais expressivas entre os ricos e perdeu nos mais pobres, teve mais votos entre os licenciados e perdeu entre os que apenas têm a escolaridade fundamental ou menos

A propósito das eleições brasileiras, João Miguel Tavares ESCREVEU O SEU CENTÉSIMO TEXTO a desenvolver a tese dicotómica, típica do populismo, que contrapõe a elite ao povo. Quando João Miguel Tavares fala de elite, incluindo-se nela, não está a falar da elite económica. Está falar, como é habitual do anti-intelectualismo da direita populista, das “elites artísticas, intelectuais e jornalísticas”. Esta elite, “que ao longo dos séculos se convenceu de que a sua missão no mundo era desempenhar o papel social de porta-voz das minorias, dos descontentes, dos pobres, dos oprimidos”, mais não quer do que acumular poder: “através desse movimento foi valorizando o seu próprio papel no mundo, assumindo-se como proprietária da boa consciência da humanidade, e acreditando que existia uma linha inquebrantável com o povo sofredor, que ela compreendia como ninguém”.

Ao contrário de George Orwell, que experimentou a pobreza para falar da pobreza, os intelectuais aburguesaram-se e falam de cátedra, explica Tavares. Não sabem como elas doem. E é por isso que “Raduan Nassar tem mais influência sobre as suas galinhas do que sobre o voto dos brasileiros”. Ao contrário de Orwell, cuja militância no POUM durante a guerra civil espanhola teve um enorme impacto na consciência nos operários ingleses, imagino eu. Ao associar a democracia, a justiça e a luta contra a opressão às elites e ao desassociar o povo desses sentimentos e da elite, João Miguel Tavares faz um malabarismo interessante: põe-se do lado da elite que defende os valores democráticos para aplaudir o “empoderamento” de quem, contra esses valores, quer “abanar o sistema de alto a baixo”. É uma boa forma de celebrar sem se comprometer. Agradar ao povo sem perder a elite que o lê.

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