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O racismo e as suas vítimas invisíveis

A patranha da nação pluricontinental e multirracial está de tal forma enraizada nas nossas cabeças que acreditamos que o racismo não é uma questão em Portugal. A nossa fé nesta mentira é tal que até dispensamos instrumentos para saber da profundidade do problema. Por uma questão de respeito pela ilusão da igualdade racial em Portugal não temos registos por etnia. Nem sequer damos aos negros e aos ciganos o direito a existirem. O preço da sua invisibilidade é a ignorância que alimenta as nossas fantasias de tolerância. Como não há qualquer registo étnico, só nos podemos socorrer de uma comparação entre os cidadãos portugueses e dos países de língua oficial portuguesa. E os números mostram que, ao contrário do que gostamos de imaginar, Portugal tem uma questão racial. De desigualdade profunda e de direitos diminuídos. Para a podermos combater temos de começar pelo básico: ter informação estatística que nos permita reconhecer o problema, dar visibilidade a esse problema e às suas vítimas e ter quem represente esta parte invisível da nossa população. Não, Portugal não é um país menos racista do que os outros. Apenas escondemos as vítimas

22 associações que representam milhares de afrodescendentes negros em Portugal enviaram uma carta ao Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD) a criticar o Estado por não reconhecer que são necessárias políticas para estas comunidades. E, quase em simultâneo, o CERD deu-lhes razão, exigindo que haja políticas ativas contra o racismo e a discriminação e considerando preocupante que os afrodescendentes sejam ainda “invisíveis nos sectores mais importantes da sociedade”.

Acho que o termo melhor é mesmo este: invisibilidade. Mas num sentido ainda mais lato do que aqui é usado. É possível ler e ouvir acalorados debates, em Portugal, sobre a violência policial contra negros e a desigualdade racial nos Estados Unidos. No entanto, o racismo em Portugal raramente é tema público. É como se as etnias nem sequer existissem. A patranha da nação pluricontinental e multirracial está de tal forma enraizada nas nossas cabeças que acreditamos que o racismo não é uma questão em Portugal.

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