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Expresso

Luís Carmelo

"Uma c... grande como a misericórdia de Alá"

Sabe bem escrever sobre autores, cuja moda começa a finar-se. A obsolescência nem sempre é um tema da publicidade; é-o também, claro está, no caso dos escritores e dos pensadores. Umberto Eco merece lugar à parte pela sua vastíssima obra e, entre outras coisas, pela capacidade de reinventar os modos com que hoje podemos olhar, perceber e interrogar os discursos do nosso quotidiano. Mas há partes de Eco menos conhecidas. Sempre desvendei por trás das suas palavras - não me refiro aos romances - uma gargalhada intermitente e sem fim. Sempre que nos seus ensaios um novo conceito é apresentado, Eco parece traduzi-lo com dotes assumidos de goliardo fanfarrão. Podia dar imensos exemplos dessa 'comédia epistemológica' e, quem sabe, se um dia não o farei até com algum fôlego, coisa que numa coluna destas não tem qualquer cabimento.

Seja como for, e talvez porque o Lector in Fabula faz para o ano três décadas de vida, lembrei-me, no fim-de-semana passado, de uma das minhas maiores gargalhadas de sempre... ao ler Eco. Porventura, se fosse hoje - em tempo de elevada 'correcção' -, o livro teria sido proibido, a passagem não teria passado despercebida e a querela das caricaturas dinamarquesas não lhe teria feito a mínima sombra. Preparados, caros leitores?

Ora, no final desse distinto ensaio (sobre métodos de análise textuais), aparece o excerto de um livro de Cyrus L. Sulzberger (The Tooth Merchant, 1973) que reza assim:

"Os bordéis mais sujos da Europa (e conheço-os todos) encontram-se na rua Albanoz, no bairro de Pérah, em Istambul, e eu estava a dormir num deles numa manhã de fins do Verão de 1952 junto de uma puta chamada Iffet com uma cona grande como a misericórdia de Alá..."

Na página 207 da edição portuguesa do Lector in Fabula (1983), Umberto Eco comenta, depois, esta incorrectíssima citação com a seguinte passagem (tão barroca à Versage quanto magnífica):

"Fragmento que não submeteremos a análise, não por pudor, mas porque põe em jogo mecanismos de hipercodificação retórica e quadros intertextuais demasiado complexos. Há nele uma comparação, uma hipérbole, a referência a quadros comuns relativos às condições ginecológicas das prostitutas dos portos, e a quadros intertextuais relativos ao estilo imaginativo dos muçulmanos... Em suma, demasiado material. Digamos que o Leitor-Modelo deveria compreender que a prostituta é velha e desagradável, mas nem por isso menos generosa das suas graças."

Como o ilegível para muitos pode, de facto, ser champagne para todos!

Ora bem, num tempo em que a autocensura vai delimitando cada vez mais o que se pode e o que não se pode dizer ou escrever (daí a "c..." alegorizada no título), esta memória surgiu-me, há dias, como uma lufada de ar fresco. Não do ar fresco que agora é doado aos fumadores que se prostram às portas das pastelarias e das repartições de finanças, mas do ar bem mais fino de quem via o mundo com uma grande e flexível balança entre a seriedade dos profetas com barbas e a grande e frágil gargalhada dos mortais. E já agora: sem que ninguém se sentisse ofendido com a dose.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor