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Expresso

Luís Carmelo

Referendo, o problema e a blogosfera

A campanha eleitoral tem colocado frente a frente dois mundos que, pelo menos na aparência, não se conseguem fazer traduzir um ao outro. É como se campos "metafóricos" de natureza diversa arriscassem dialogar, acabando esse esforço inglório numa espécie de trovoada contínua. Nem sempre um santo consegue dialogar com os peixes, quanto mais os peixes com o santo.

Um desses mundos observa o próprio 'teatro do mundo' e constata o óbvio: fazem-se, sempre se fizeram e far-se-ão sempre abortos. A aposta passa por tentar salvaguardar a liberdade e os cuidados que deverão assistir à prática de aborto (tantas vezes guiada pelo imponderado). O outro mundo parte de um acto fundacional (e, portanto, de uma noção quase absoluta de "vida"), limitando-se a condenar a prática do aborto, mas sem depois ponderar as questões que inevitavelmente se revelam a jusante, ou seja, a liberdade, os cuidados e o mercado paralelo e abjecto que existe diante dos nossos olhos.

Ambos os mundos condenam o aborto, é claro, mas um tenta atacar os seus danos óbvios e descriminalizar, enquanto o outro profere valores, embora esqueça que proferir valores não é suficiente para resolver problemas. E aqui há, de facto, problemas para e por resolver. Como? É uma discussão saudável a ter, mas só quando o fantasma da perseguição criminal sair de cena (incluindo aí a questão da gratuitidade universal, pura e simples que não partilho).

É por isso que eu voto Sim, mas um Sim livre que não cai naquela feérica tentação de quem imagina um jogo de Communards entre barricadas que radicalmente se excluem. A liberdade é, em primeiro lugar, um usufruto pessoal e jamais uma coisa dada ou determinada. A mulher desde sempre se confrontou com esta sua liberdade e com os seus limites. Poderá o estado, alguma vez, ameaçá-la? Seria no mínimo indigno.

A blogosfera tem sido um interessante cais para o vórtice de factos e argumentos que estarão no dia 11 na cabeça dos eleitores. Eu decidi partilhar as amarras do blogue "Sim-Referendo" (http://sim-referendo.blogspot.com) – fica aqui a minha breve confissão de interesses –, um espaço onde se têm comungado respirações e compreensões da coisa pública à partida muito diversas. Um sintoma positivo do nosso país de hoje. Só por isso já teria valido a pena esta campanha que, digamos a verdade, teve muita muita muita coisa para esquecer.

Luís Carmelo

prof. universitário e ensaísta