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Luís Carmelo

Luís Carmelo (www.expresso.pt)

Provas de Aferição: uma metáfora do país

Na Mensagem, Pessoa identificou o mito com esse "nada que é tudo". Bem sabia o poeta que o Nada tinha um grande futuro à sua frente. Um futuro igual a um rato que pariu, não uma montanha, mas as próprias Provas de Aferição.

Só o nome - Provas de Aferição - sabe a coisa sem sal. Deixemo-nos de juízos, até porque eu gosto realmente da designação. Porquê? É simples: trata-se da melhor metáfora do funcionamento do nosso querido país.

Ora veja-se: uma imensa ostensão mediática, o entusiasmo rocambolesco dos "agentes educativos", a excitação das crianças, uma polémica medonha e um nervoso do caraças na epiderme da 5 de Outubro. Enfim: um transatlântico a tremelicar como se houvesse maremoto e as trevas mesmo ali no fundo do horizonte.

Só que chegadinhos ao fim, estas Provas de Aferição não contam. Isto é: havia que explicar a estónios, afegãos e etíopes que estas Provas, embora sendo Provas, não avaliam coisa nenhuma. Não dão nota, nem aprovam, nem chumbam. Nada disso, pois a pedagogia vê mais além. Tal como os deuses do tártaro - do tempo dos romanos - que conheciam a batida do coração dos fundos da terra mãe.

As Provas de Aferição não separam o trigo do joio, pois servem apenas para ensaiar, para estudar, para investigar. Melhor: servem para os pedagogos medirem a didáctica com uma fita métrica conceptual. Finalidade: verificar se os objectivos, as competências e o espírito santo (os três num só) corresponderam ao planeamento e ao esgar do sistema. Não separam joio do trigo, mas permitem ver mais além. Como os deuses do tártaro. Uma iluminação pungente.

Toda a pesada logística, toda a complexa preparação das Provas e toda a sua operacionalidade, monitorizada - como agora se diz - minuto a minuto, dá origem, no fim do caminho, a Nada. Uma óptima metáfora do país: tanta tinta, tanto aceno palavroso, tanto relatório, tanto estudo de viabilidade, tanta discussão, tanto espaço público, tanto fórum, tanta comissão de inquérito. E Nada.

Para María Zambrano, o Nada foi a última aparição do sagrado. Ela bem sabia que havia missas na 5 de Outubro. Na Mensagem, livro onde Pessoa introduz a ideia do rosto europeu, o poeta identificou o mito com esse "nada que é tudo", como se fosse "o corpo morto de Deus/ vivo e desnudo" que "aportou" em Portugal. Pessoa bem sabia que o Nada tinha um grande futuro à sua frente.

Um futuro igual a um rato que pariu, não uma montanha, mas as próprias Provas de Aferição. Não há melhor retrato de um certo Portugal do que estas Provas de Aferição. Elas são a metáfora dos gases raros em que, infelizmente, nos tornámos.