Siga-nos

Perfil

Expresso

Luís Carmelo

O reino da banalidade

Durante os quase vinte anos em que leccionei uma cadeira de introdução à semiótica, acenei muitas vezes aos alunos com a imagem de "um boi a voar de costas" para melhor fazer compreender a importância do tema da significação. De facto, na maior parte das vezes, a significação dilui-se diante dos nossos olhos com tal naturalidade que chega a lembrar o modo como os lábios de Marilyn Monroe se adequam à fotogenia do desejo, ou como a paixão de Ingrid Bergman por Rosselini se terá adequado à mais pura das inevitabilidades. A adequação pela adequação tem destas coisas: vale por uma divindade onde tudo bate certinho e que acaba por dividir o mundo entre o que 'deve ser' (o que está à vista) e o que é rotundamente "banal".

Também houve, no seu tempo, quem apenas entrevisse banalidade em Marilyn, ou no casal de Stromboli.

Não partilho da angústia dos que encaram as novas expressões como formas de banalidade. Nas últimas décadas, um horizonte fixo de referências com mais de dois séculos de idade foi-se descolando da experiência do dia a dia, do mesmo modo que a tecnologia e a rede vieram atribuir ao presente novos entendimentos. A banalidade de que hoje tanto se fala é sobretudo o resultado dessas reordenações.

A blogosfera é uma das áreas que cresceu na turbulência comunicacional do nosso tempo. Subitamente, quebraram-se as paredes que limitavam os géneros e passaram-se a ouvir vozes que antes não dispunham de meio para enquadrar a sua expressão. Todos conhecíamos já a tradição espistolográfica, enciclopédica e opinativa (ou os modelos do diário, da crónica, das memórias, etc.). Contudo, a blogosfera, está hoje a proporcionar a enunciação de tipos expressivos que não se coadunam com nenhum destes moldes clássicos.

Do quase nada, uma nova e súbita vaga encarnou, encorpou e descobriu-se no vertiginoso papel de autor e editor, nessa confluência de olhares que ainda ontem dividia o imenso fosso entre auditórios e emissores. Desaparecido o palco que os afastava, removida a crisálida que envolvia a voz, transposto para a rede o desejo de "dizer", eis que a novíssima panóplia desabrochou. E com ela, é certo, emergiu alguma banalidade.  Mas não se reduza a blogosfera à banalidade. A 'dessacralização expressiva em curso' (DECU) é comum, por exemplo, à actualidade da arte dita "pobre".

Depois de um longo tempo em que as referências eram autores, vias consagradas e valores pesados ou centrais, hoje cada post encarna por si uma referência, a sua própria referência: perdida e ganha no novo éter de expressões ainda à procura de rosto.

A "consciência do nosso tempo" é uma ideia moderna que tem atrás de si uma longa história. Perceber a sua adequação nos nossos dias significa entender o instantanismo tecnológico e as múltiplas formas paródicas com que as novas vozes traduzem uma - também - nova visibilidade do mundo. Tal como o poeta Vasco Gato escreveu: "não tem anatomia,/ olhos apenas". Estamos, pois, num novo patamar. Confundi-lo com banalidade seria quase um crime.

Luís Carmelo

Prof. universitário e ensaísta