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Expresso

Luís Carmelo

O exílio das mulheres portuguesas

É verdade que, na antiga tragédia, Édipo matou o pai e casou com a mãe que tinha o lindo e promissor nome de Jocasta. O deleite, a presença e o mistério da primeira das mulheres alimentaram o destino singular de Édipo e acabariam, séculos mais tarde, por dar corpo ao mais célebre ditame da psicanálise.

O caso português é em tudo oposto ao que Freud enalteceu quando interpelou os desvarios do Édipo Rei de Sófocles, já que, logo no início da saga, D. Afonso Henriques transformou a possível atracção edipiana em destemida ira e conquista. O 'Complexo de Henriques' mais não é do que a conquista de um espaço de eleição a que os deleites, a presença e os mistérios da mulher são rigorosamente alheios.

Esta postura teve os seus continuadores de excelência, sobretudo através dos protagonistas dos chamados "mitos portugueses". Pedro jamais partilhou à luz do dia a viva plenitude da sua Inês, a não ser, ressentido e vingado, no lúgubre beija mão de Alcobaça e depois no variadíssimo corpo de lendas que foi frutificando em peças de teatro e em óperas pelo mundo fora. Ao lado deste mito do "amor eterno", como lhe chamou Natália Correia, o nosso mito messiânico despertou na desventura de Sebastião, esse rapaz tão aventureiro e misantropo quanto temente de uma bela e exaltada roda de sete saias. Mais tarde, os cultores do "império espiritual lusitano", ou se dedicaram feericamente à panóplia profética e às grandes e arriscadas viagens, caso de Vieira, ou se iniciaram com timidez ao som da "chuva oblíqua" sempre recheada pelo pudor e pelo "ridículo" das cartas amorosas, caso de Pessoa. Já no século XX, o culto mariano – que fez contracampo cinematográfico ao "bolchevismo" de então – reatou a saga henriquina original, desta feita espiritualizando a mulher e convertendo-a numa divindade intocável, tal como já havia feito D. João IV quando doou a coroa dos reis de Portugal a Nossa Senhora da Conceição nos idos da Restauração.

Tudo bate certo, como se vê: de uma maneira ou de outra, o geniceu fica sempre de fora da narração: por pudor, por medo, por ira ou até por mística deslumbrada.

Eu que sou um céptico visceral face a tudo o que, na "Academia", seja da ordem do "gender" ou da "filosofia portuguesa" (sempre que vejo uma universidade a investir nessas epistemologias, desconfio) não posso, no entanto, deixar de constatar como é que o primeiro – no caso do feminino – é, entre nós, historicamente prisioneiro da segunda.

Toda esta prosa encantada mas verdadeira tem uma finalidade, caro leitor. A crónica nunca é inocente nem desprevenida, para mais quando se ocupa de blogues.

Deixo por isso a pergunta final: para além das excepções da praxe, não será por causa de todo este pesado enredo histórico que são da autoria de mulheres os blogues portugueses em que mais se funde o humor, a paródia, a têmpera, o desconcerto, a provocação e a vitalidade? Querem confirmar? Ora passem, entre outras, pela Zazie, pela Carla Quevedo, pela Rititi, pela Lolita, pela Fernanda Câncio, pela Cláudia Vicente, pela Isabel Goulão, ou pela Catarina e digam lá se não é assim mesmo!? (e tenho a certeza de que o material de prova fica ainda no adro, tal como ficou para sempre nos meus ouvidos a procissão de Lopes Ribeiro e Villaret).

Luís Carmelo

Prof. universitário e ensaísta