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Expresso

Luís Carmelo

No país dos insones

Na insónia, há uma espécie de túnel obscurecido que se forma. Subitamente. Vindo daquele tipo de surpresa que surge nas paisagens sem fim: praias inóspitas, mares tempestuosos, planícies extensas, estepes quase desertas. E há, por vezes, que saber percorrer esse túnel como se não houvesse tempo no horizonte. Mas apenas um breve instante, uma ínfima travessia, um logro que poderá vir por bem.

O que se pensa numa insónia não é nunca objectivo. É antes uma súmula indistinta, sem grandes contornos. Uma pintura expressionista à procura de sentido. A insónia é um sarcófago sem múmia, um canal sem Veneza à volta, um Stabat Mater sem Vivaldi. Geralmente, a esperança rareia na insónia. É da praxe. Mas sabe-se, apesar do tom crepuscular, que tudo irá continuar. Para além do muro. É curioso que, na literatura, a insónia é amiúde encarada como tema menor. Por que será, meu caro Marcel?

Bem esperei pela resposta, mas Marcel não respondeu. Nem nunca nos responderá. Sabe-se, contudo, que, entre esse silêncio irrespondível, Marques Mendes saiu da sua insónia, enquanto, desprevenido, Menezes nela terá entrado. De fora, a tentar acordar do pesadelo, Santana Lopes esgaravata à sua volta e não gosta nada que o tenham acordado à pressa, sem jeito, para mais num directo nocturno que ostenta uma personagem tão sonhada quanto adulada. Qual sarcófago, qual Veneza, qual Vivaldi!

No governo, a tecnologia e os rankings internacionais descansam os espíritos. Para além do mais, até Dezembro, haverá muita Europa e ainda mais dilemas a converter em matéria de crónica (Mugabe é, nessa vasta amálgama, apenas uma gota de orvalho). E se 2009 vai ser terreno fértil de campanha eleitoral, resta a 2008 ser o palco de todas as decisões. Há quem seja apólogo da teoria salvífica que revê em Manuela Ferreira Leite a encarnação sebástica do próximo Outono. Enfim, conjecturas sonolentas, cenas de vigília, mágoas de sabor gótico.

Certo é que, dez anos após a euforia da Expo, nove anos depois de Timor ter sido um generoso talismã para Guterres e vinte anos após o estado de graça de Cavaco, nos preparamos para um 2008 igualmente eufórico. Portugal gosta de altos e baixos, de carrosséis ondulados e abismados, de nevoeiros densos que alternem com um sol escaldante e porventura hipnótico. Portugal gosta de acordar a meio de um desígnio traçado (neste caso, o tecnológico) e expor-se depois à insónia. Ou seja: ao pequeno debate, às ínfimas travessias e a todo o tipo de logro que venha por bem. Qual sarcófago, qual Veneza, qual Vivaldi!

O Portugal profundo, mais do que um país de poetas, é - e sempre foi - uma terra de bravos insones.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor