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Expresso

Luís Carmelo

Mengele em Paris

Parece que foi agora mesmo. Lembro-me que o dia ia avançado – umas três grolsch e um gorduroso fricandel enchiam as horas –, quando ouvi o telefone. Era a televisão (holandesa). No dia seguinte, tive que me levantar cedíssimo e lá voei com o camera crew e com o ensonado jornalista que fazia um dos programas de actualidade mais vistos na altura (esqueci-me completamente do nome dele).

Ali ia eu como tradutor escolhido à pressa, depois de várias tentativas, em Hilversum, para encontrar alguém que não deixasse fugir aquele encontro com a "História" que a AVRO (o nome do canal) tinha subitamente descoberto. Só soube do que se tratava, quando nos alojámos numa das salas privadas do aeroporto Charles de Gaulle. O entrevistado que, umas horas depois, apareceu na minha frente era um alto responsável da polícia de S. Paulo que estava em (discretíssimo) trânsito a caminho da Alemanha.

Na sua pequena mala metalizada, levava nem mais nem menos do que os presumíveis ossos do nazi Josef Mengele que iriam ser sujeitos a testes de DNA. Lembro-me como ao Calvinismo exigente e austero do jornalista holandês correspondeu um humor (no mínimo) desbragado e sobretudo intraduzível por parte do brasileiro. Embora a circunstância fosse considerada "histórica" pela AVRO, eu consegui conter-me de forma extrema para que a tragédia cómica não se sobrepusesse à indagação objectiva. Nunca mais soube nada acerca desta história que se passou há mais de duas décadas.

Há vinte anos, mesmo no Ocidente livre e democrático (estávamos ainda em guerra fria, nos inícios da fase Gorbatchov), a gestão dos segredos e dos exclusivos tinha características completamente diferentes das que tem hoje. A CNN penetrara há meses no cabo de Amesterdão, não havia ainda PCs em casa das pessoas e muito menos blogues e outros tipos de comunicação em rede (que reflectissem o que faz o mundo ser uma montagem de vários vísiveis e invisíveis). O tom da época era mais analógico e vertical: ligava vários vértices a imensos auditórios que, no entanto, já procuravam os sentidos da mega-operação quotidiana. O pano de fundo ainda se baseava nas rupturas e fronteiras das Segunda Grande Guerra Mundial (lembro-me tão bem da evocação de 1985).

A partir de 1989, outros panos de fundo começaram a desdobrar-se numa nova pluralidade de novos palcos. Aí afluiram, a pouco e pouco, ao longo dos nineties, a emergência tecnológica, a dessacralização das crenças e sobretudo uma nova relação entre a liberdade e a abertura da sociedade. Apesar do Holocausto e da terrível memória do nazismo (e do comunismo, não o esqueçamos), os ossos de Mengele passaram a ter um significado bem menos actual. E "histórico".

Talvez seja essa a razão por que nunca cheguei a conhecer o desfecho da história do Charles de Gaulle.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor