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Expresso

Luís Carmelo

Já Cesário amava a 'Lisboa Gás'

Cesário Verde já previa isto. Não é por acaso que uma das quatro partes do seu mais emblemático poema, O Sentimento dum Ocidental, dá pelo nome de "Ao Gás". E não é por acaso que, logo na segunda quadra desse manifesto único, Cesário tenha escrito - "O céu parece baixo e de neblina,/ O gás extravasado enjoa-me, perturba". Esta Lisboa do "bulício", da "turba" e do Tejo, mais coisa menos coisa, é ainda a mesma que hoje faz perder a paciência ao mais sereno cordeirinho de Deus.

Estava eu a telefonar para a 'Lisboa Gás', que é uma nuvem do céu carregado da Galp - a tal marca que fez dos preços o que quis na passada crise de fim de Verão -, e havia uma senhora do outro lado da linha que adorava filosofia. Indo directamente ao assunto: eu apenas queria ter gás no meu apartamento de Campo de Ourique, mas a senhora insistia - "Não, neste caso, é impossível fazer o contrato por telefone ou mesmo pela Internet". "Neste caso?" - pensava eu. "E em que casos, minha senhora, é que é possível celebrar o contrato pela net, ainda que depois a inspecção tenha que verificar... as condições?". A senhora sorriu e concluiu. Sem parcimónias: "É neste caso e em todos os casos". E eu fiquei a perceber que um e todos são uma e a mesma coisa. Cesário torceu o nariz, havia maresia, e eu fiquei sem saber bem o que fazer.

Não é bem assim. A verdade é que fiquei a saber que me devia deslocar a uma das lojas que representam a 'Lisboa Gás'. Pairam-me ainda no ouvido as doces palavras pronunciadas ao telefone: "A loja mais próxima é no Rato e pode ir até às sete da tarde". Ora bem, desci a rua onde Garrett um dia morou - a famosa casa reconstruída pelo ministro Pinho - e vi-me, de repente, no fim da Rua do Sol ao Rato (Cesário adora esse nome). Quando cheguei, passava um pouco das seis e meia... eis que o "sistema" tinha já fechado. A empregada da loja Singer confirmava-o: "É verdade, eles fecham o sistema às seis e meia. É assim todos os dias". Azar o meu: é que só estou em Lisboa na parte final da semana e, portanto, não vai ser nada fácil voltar aqui.

Adoro palavras como "sistema" e "eles". São termos carnavalescos que marcam território e ilustram deveres. O meu cão sabe muito dessas matérias. E também sabe que, um dia, como já nos aconteceu por duas vezes nos últimos três anos, a inspecção do gás há-de bater à porta para ver se está tudo bem. Descobrirão sempre uma mancha no tubo e um caracol pousado na porca. Regressarão, por isso, uma segunda vez para aprovar tudo, mas antes terão já arrecadado um bom saquinho de euros. No entanto, para que tudo tivesse corrido às mil maravilhas, deram-me o telemóvel de um ... ex colega da 'Lisboa Gás' que apareceu, como gafanhoto fora de época, para apagar a mancha e mudar a porca.

Qual BPN, qual Porto Rico! O facto é que Cesário Verde sabia, há muito, disto tudo. Não tanto dos abusos, galpusos e monopólios lusitanos, mas sobretudo das sombras que povoam a "soturnidade" que o nosso rectangulozinho sempre respirou. E nada melhor que o "Gás" para o exemplificar. Ontem como hoje.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor