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Expresso

Luís Carmelo

De licra lilás como a Madonna

Muitos portugueses gostariam de ser como o King Kong: peito ainda mais peludo, força instigadora e narinas de intimação para o que desse e viesse. O fenómeno é óbvio quando se olha para o trânsito do nosso país: face aos erros dos outros, os portugueses reagem em cadeia e vociferam como se fossem um híbrido entre o escuteiro impoluto e o vitoriano indignado.

Haveria razão para tais enfados, se todos os portugueses fossem polícias de trânsito, ou se todos estivessem no lugar da consciência dos faltosos, ou ainda se fossem sempre vítimas dos actos destes. Mas mesmo não sendo polícias, nem fantasmas de mentes alheias, nem sequer vítimas, os portugueses continuam a insistir nesta prática. Todos os dias. É coisa que lhes está no sangue.

No fundo, adorariam ter perseguido Jack, o estripador. No fundo, gostariam que a sua consciência fosse sempre a dos outros (criar-se-ia assim um mundo de criaturas liliputianas a dançar sobre uma caixinha que reproduziria sempre a mesma música). No fundo, gostariam de ter sido sempre vítimas, de acarretar culpas pesadas e de se queixarem a tempo inteiro dos infortúnios do destino.

Estas três características do King Kong "português suave" poderiam condensar-se numa única imagem. Imaginemo-la como uma espécie de Júlio César vestido de licra lilás como a Madonna a ler versos de Teixeira de Pascoaes de manhã à noite (ou então, numa versão menos intelectual, a devorar a aura do Padre Sousa Martins). Creio que é um retrato robô bastante aproximado do português inconsolado com o caos do trânsito que, ao fim e ao cabo, ele próprio tanto adula e pratica.

Se colocarmos lado a lado o trânsito e a blogosfera, numa espécie de alegoria menor, é bem possível que ao português inconsolado com o trânsito corresponda um novo tipo de voyeur da blogosfera que anda, aliás, muito em voga.

O retrato robô desse novíssimo voyeur – que acumula também as funções de escuteiro vitoriano – é claro e não tem quaisquer segredos: diz que nunca leu blogues, ou então, se os leu, foi por brevíssimo lapso e tão-só para confirmar a demência informe que os percorre de lés-a-lés e sem excepção.

Pode ser um jornalista com dores da tarimba. Pode ser um académico que trocou a especialização pela cor das joaninhas. Como pode ainda ser o simples desempregado de causas maiores: desses que de tanto sonhar se tornaram na bela adormecida, embora sem terem reparado, tal como Pessoa avisou, que eram eles mesmos "A princesa que dormia".

A desconfiança face à cidadania electrónica é um sintoma cristalino da excitação destes nossos King Kongs lusitanos (o "Velho do Restelo" não teria o encanto de quem parte a porcelana toda). Por outras palavras e regressando à alegoria: à medida que as novas formas de cidadania se consolidam, neste novo mundo cada vez mais descentrado e aberto, mais a caravana passa e o escutismo impoluto vocifera com a força de um nada. É por isso que, sensivelmente a meio do seu último romance, A Possibilidade de uma ilha, Houellebecq dá a Vincent Greilsamer – personagem meio iniciática – as seguintes palavras: "A única coisa que não é Kitsch é o nada".

Luís Carmelo

Prof. universitário e ensaísta