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Expresso

Luís Carmelo

Dado como morto em 1918

Vai de bicicleta entre Évora e o Redondo, corre o ano de 1918 e o armistício que há-de pôr fim à Primeira Grande Guerra Mundial ainda está para vir. Traz consigo alguma bagagem e um remoinho de memórias difícil de contar e conter. Ao fim e ao cabo, antes mesmo de chegar são e salvo a casa, já foi rezada missa por sua alma e, apenas por sensatez, é que não terá levado a cabo o sonho de fazer uma grande surpresa e... aparecer, sem mais, perante os seus, quando estes já o consideravam a viver noutro mundo.

A aventura tinha começado meses antes, no próprio cais de embarque dessa Lisboa ainda a cheirar a Odes pessoanas e ao fado castiço dos Boqueirões. Por ordens superiores, afastara-se durante algum tempo da azáfama dos dois grandes navios, já de vapores ao rubro e escadas quase içadas, para ir cambiar dinheiro. De regresso, logo verificou que apenas o barco reservado à cavalaria permanecia encostado ao cais. O outro, onde devia viajar, deslocara-se entretanto na direcção da barra para evitar uma iminente revolta a bordo. Seguir-se-ia a travessia no barco errado, embora, segundo ditam as crónicas, tivesse sido calma e muito mais rápida do que o previsto.

No porto de Brest, descontraído e ao sabor do vento, é ele quem acaba por receber no quebra-mar o barco que transporta o contingente português com destino à fatídica região da Flandres. As altas patentes já o davam, a essa hora, como desertor, mas também como actor de possível sumiço. Afinal, compreendidos os factos, tudo se compõe e ele acaba por cumprir, como previsto, no árduo corrupio das transmissões, um serviço vital para aquela longa faixa que vai do sul de Lille, ocupada pelos alemães, a Laventie e à Boulogne marítima. É nesse teatro de guerra que os gases entram subitamente em acção, lesando-o de forma algo irremediável.

Na galeria dos feridos, por artes de sortilégio, o destino troca número das macas e ele acaba por seguir, na sua mudez involuntária, para o hospital dos ingleses. É muito bem tratado nesse território onde o 'não dito' supera tudo aquilo que se poderia augurar, ou tão-só dizer. E é apenas quando recupera a lucidez da voz que, finalmente esclarecido o sentido do acaso, ele acaba por regressar aos cuidados, aliás escassos, do exército luso. Durante este tempo todo, em Portugal, é dado como desaparecido, mas agora, com a preciosa ajuda de um general, consegue finalmente obter a justa autorização de regresso a casa.

Anda pela Paris de Gance e Delluc, galanteia uma loura no consulado português, desce no Sud Express até à terra que Buñuel ainda não trocou pela Gália e reentra, por fim, no país pobre e sidonista que é o seu. Em Lisboa, decide fazer um telegrama para o Redondo a anunciar que está de volta; ou seja: da morte imaginária para a vida. E de vez. Parte do Terreiro do Paço para Évora e daí, numa bicicleta que desconheço a origem, atinge, entre poeiras, a sua vila natal, o Redondo. O feitiço de pródigo andarilho levá-lo-á, não muito tempo depois, a Vila-Viçosa. E é aí que começa parte de uma outra história que é, hoje em dia, também a minha.

Diga-se que este foi – e é – um dos mil enleios aventurosos do único avô que não cheguei a conhecer em vida, de seu nome José Carmelo, primo, entre outros, do tenor e também viajante Tomás Aquino Carmelo Alcaide que, três anos mais tarde, também poria fim à vida militar para abraçar uma singular carreira no mundo da ópera.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor