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Expresso

Luís Carmelo

Cinematografias de verão

Estou sentado numa cadeira de verga no terraço do Grande Hotel da Nazaré. Aponto em frente na direcção do mar. Já não lembro a minha voz. Nem a temperatura desse verão, nem o som que envolvia aquela única construção em altura que simulava ser uma falésia, ou um contraponto à ferradura santa do Sítio de que retenho apenas a redenção fotográfica. Estou nas nuvens e por trás, além dos meus pais e do meu irmão, está uma tia que guiava um taunus com o globo à frente, que administrava uma empresa de moagens e que escrevia poemas no Século Ilustrado sob pseudónimo. Talvez por tudo isso – a fotografia sugere-me um episódio do paraíso – se chamasse Tia Mar.

Corria a década de sessenta, antes ainda do mundial de Inglaterra. Não me lembro das altíssimas taxas de crescimento económico, nem do sabor das pêras que vinham de Alcobaça embrulhadas em perfume. As ondas lá em baixo, no areal, eram altas, certas e envolviam as sete saias das nazarenas que, destemidas, vendiam bolos, rendas e uns barquinhos de madeira pintados de azul e vermelho. Os banheiros – seres mitológicos vestidos de branco – agarravam nos miúdos que escapavam aos toldos e barracas e, de modo espartano, atravessavam-nos nas ondas como se fossem golfinhos de aço. Não se falava em Maios revolucionários e a guerra era tinta de marcianos numa caixa minúscula de O Século.

Havia poucos turistas, uns tantos franceses com os seus daufines ou com um ou outro simca aronde para evocar a, então para mim desconhecida, nouvelle vague. Mas o meu olhar tinha seguramente a câmara na mão: era solto, selvagem e estava mergulhado numa inocência à Pierre le Fou. Uma inocência que não se via a si própria, porque se resumia a uma espécie de monólogo celeste em que a voz do pensamento e a voz do vivido ainda pactuavam em harmonia como nos tempos mais pródigos do cinematógrafo de Méliès.

Há um tempo em que tudo bate certo. O verão herda esse percurso antigo, silenciando-o e, ao mesmo tempo, dando-o a beber com sofreguidão. Os extremos do verão terão aqui a sua génese: enquanto os corpos se sentem leves como as folhas de um limoeiro, a memória é invadida pela inexplicável tentação das esfinges que ecoa do passado. A minha Tia Mar continua no terraço, fuma um cigarro comprido e ri com ar de quem oferece champagne a toda a gente. Godard sorri abraçado aos banheiros. As nazarenas pousam a mão nas barbas de Méliès. O dono do daufine cumprimenta os meus pais. Ainda havia França. E o meu irmão olha para a rebentação agitada já a pensar em física quântica.

Eu, o quase encoberto, continuo sentado na cadeira de verga. No terraço olímpico da Nazaré.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor