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Expresso

Luís Carmelo

A premonição de Duchamp

Uns dias após o Natal de 1919, Marcel Duchamp comprou numa farmácia de Le Havre um frasco de vidro. Com a cumplicidade do farmacêutico, desfez-se do líquido que o frasco continha e voltou a fechá-lo hermeticamente. Uma semana mais tarde, já em Nova Iorque, Marcel Duchamp deu a "obra de arte" à família que o alojou e baptizou-a com o singelo nome de "Ar de Paris". Quando, vinte anos depois, este mesmo frasco – já então parte da Colecção Arensberg – se abriu de forma involuntária, outro destino não o aguardava que não fosse atravessar o Atlântico para receber em Le Havre – e na mesma farmácia – um novo ar e uma nova tampa. Claro que o nome da "obra de arte" se manteve incólume: "Ar de Paris".

Nesta ode marítima, à parte as mil considerações sobre o 'ready-made', o mais interessante é a sucessiva dança de sentidos. Repare-se que, quando Duchamp se entendeu com o farmacêutico de Le Havre, naquele dia 27 de Dezembro de 1919, o frasco passou de imediato a ser um objecto com uma nova significação. O mesmo se poderia dizer do "ar" nele contido e do jogo de linguagem que passou a conotá-lo ("Ar de Paris"). Recolocando esta metamorfose na arena dos nossos dias, poder-se-iam traçar correspondências tentadoras: o frasco equivaleria a uma espécie de 'hardware', o ar ao 'éter da rede' (a imaterialidade dos novos circuitos) e os nomes inventados ("Paris", por exemplo) às linguagens que atravessam ciclopicamente o cibermundo.

Levando mais longe este paralelismo: ao 'blogar' mais não se faz do que permanentemente retirar e fixar a tampa ao paródico frasco de Marcel Duchamp . O ar desse frasco ter-se-ia generalizado, dando origem a numa novíssima atmosfera que já não habita nem dentro nem fora do frasco, que já não é nem imaginária nem real, e que já não é nem relíquia estética, nem estática, nem obra incomum (dir-se-á que se passou a confundir com o próprio espaço da rede – essa informe globário de 'hosts' e 'routers' feericamente ligados entre si).

A atitude performativa de Marcel Duchamp já semeava este propósito vivido hoje em dia na blogosfera: designar, dizer, referir ou preencher o espaço do 'post', em primeiro lugar, e ancorá-lo a um dado verosímil apenas depois. Não é, de facto, a relação 'verdade-não verdade' que persegue o actual fascínio da leitura e da escrita na blogosfera, mas sim o ímpeto e o contraste entre os sentidos que vão sendo criados. Numa esfera profundamente auto-referencial onde os contextos são rápidos e estão imersos na enunciação 'post a post', aquilo que, no tempo de Marcel Duchamp, foi um gesto "criativo" e singular é hoje tão-só um dado pragmático, ou um elementar denominador comum da novíssima navegação.

Luís Carmelo

Prof. universitário e ensaísta