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Luís Carmelo

1ª de Maio: o tabu ou o nosso Ganges?

Festejemos o tabu. As pessoas têm toda a legitimidade em crer nas suas Fátimas ou até no meu Benfica. Nem de outro modo a vida teria graça, polémica, ou motivos para os antropólogos se dedicarem às suas sempre curiosíssimas investigações. 

Luís Carmelo

Herdamos ainda hoje um tempo que separava o trabalho daquela classe de "gente" - leia-se depreciativamente - que, um dia, teve a ideia de criar uma empresa e gerar postos de trabalho. Um tempo em que, de modo dicotómico, o anátema do chapéu de côco e a multidão miserável de operários (que o primeiro cinematógrafo de Lumière nos deu a ver) se chocavam de modo irremediável.

A ideologia, repartida por catecismos diversos, seguiu o modelo das propostas de redenção, quase todas herdeiras das escatologias que, no caso das religiões do Livro, prometiam milenarmente um paraíso onde a palavra "injustiça" viria a ser impronunciável. Ingenuidades terríveis, nascidas de factos não menos terríveis e que deixariam a "História" do século XX, em nome de princípios inflamados e até de promessas de igualdade, marcada por crimes hediondos.

Prometer o céu na terra ou para além da morte é algo, no mínimo, insano. Advogar como manifesto político a defesa dos "fracos", dos "oprimidos", do "povo" ou de outra categoria do género, como coisa exclusiva, é algo, no mínimo, insano. Mas, enfim, as pessoas têm toda a legitimidade em crer nas suas Fátimas ou até no meu Benfica. Nem de outro modo a vida teria graça, polémica, ou motivos para os antropólogos se dedicarem às suas sempre curiosíssimas investigações. Insano é um adjectivo parecido com as malas concebidas por certos designers: é algo, de facto, reversível.

Vem isto a propósito do dia Primeiro de Maio (hasteando... maiúsculas). Trata-se de celebrar o óbvio, isto é, aquilo que julgo fazer de manhã à noite, no dia-a-dia, seguramente a par de todos os que estão a ler, neste momento, esta crónica. Há feriados mais problemáticos, ou seja, que bem podiam ser encostados ao domingo mais próximo e celebrados, portanto, com mais afinco e seriedade: o primeiro de Dezembro, o 25 de Abril, o 10 de Junho, o 15 de Agosto, o 8 de Dezembro e mais uns tantos. Mas neste feriado, sim, neste feriado, nascido da fornalha feérica e dogmática do "trabalho", é que... ninguém jamais poderá tocar.

Festejemos então o tabu. E a ironia. E façamo-lo a trabalhar o mais possível. É o meu caso, que não cultivo o sabat, apesar de todos nós sermos - felizmente - um pouco judeus. Trabalhar: essa parte da vida em que se espera uma retribuição qualquer e não essa parte da vida em que nada se espera. Mas o ser humano espera sempre qualquer coisa, aspira sempre a tomar conta do que se lhe apresenta à frente; enfim: move-se para ser. Merecemos, pois, este nosso feriado. Tal como o Ganges merecerá a sua própria redenção diária.