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Moro: o “pezinhos de lã” das botas cardadas de Bolsonaro

A vitória de Bolsonaro não foi apenas um acontecimento. Tem antecedentes mais remotos e episódios mais recentes. O golpe que resultou no impeachment de Dilma Roussef – uma presidente sem cadastro destituída por um Parlamento chefiado por corruptos – e a condução política do processo Lava Jato por Sérgio Moro – que descredibilizou totalmente o sistema judicial brasileiro ao partidarizá-lo de uma forma inédita – contam-se entre os mais significativos.

Quando a operação Lava Jato surgiu, parece ter sido vista pela generalidade dos brasileiros como uma oportunidade de fortalecimento da democracia, por via de um combate decidido à corrupção. Cedo se percebeu que não era o caso: as irregularidades no processo foram tão grosseiras (levando até o Comité de Direitos Humanos da ONU a pronunciar-se contra a chocante arbitrariedade processual e a retirada dos direitos políticos a Lula), a investigação foi tão escandalosamente seletiva do ponto de vista político, que cedo se transformou numa operação da Direita brasileira. Sérgio Moro funcionou assim como a extensão judicial desse bloco político cujo objetivo era, pelos meios possíveis, deitar por terra as conquistas sociais da última década no Brasil e liquidar o PT.

Se isto hoje está mais claro, com a ida de Sérgio Moro para o cargo de Ministro da Justiça de um governo presidido por alguém que faz o elogio da tortura, da ditadura militar e da censura da imprensa, nem sempre foi assim. Quem denunciava o óbvio – e repito, até a ONU alertou para a gravidade do que estava a acontecer – logo era acusado de ser “conivente com a corrupção”, de ser “defensor acrítico do PT”, de ter uma leitura “demasiado ideológica”, de defender “os amigos de Sócrates” ou outras classificações do género. Mesmo que essa pessoa viesse de um campo político – como é o meu caso – que há mais de uma década que é crítico do PT, que acompanhou quem rompeu com o PT pela esquerda para fundar novos partidos e nunca teve qualquer conivência com a corrupção, cá ou lá. Depois do que se sabe hoje, quem usou esses epítetos contra quem denunciava o golpe só pode estar a corar de vergonha.

A narrativa que criou o caldo de ódio que está na origem da atual desgraça da democracia brasileira fez-se da combinação de vários elementos. Primeiro, a desqualificação do adversário pela transformação de PT em sinónimo de corrupção, narrativa que ganhou uma hegemonia tão forte no Brasil e fora dele que, se alguém ousasse pôr em causa essa aparente verdade inquestionável, estaria já a ser cúmplice da corrupção. Se é verdade que o PT participou de esquemas inaceitáveis de corrupção, facto é que esses esquemas envolviam quase todos os outros partidos brasileiros (com a exceção de alguns mais à esquerda, como por exemplo o PSOL ou os Verdes) e curiosamente o PT nem era o partido que liderava a lista: quase todos os outros têm dirigentes apontados em maior número, incluindo alguns dos protagonistas do golpe. Assim, a identificação entre um partido em particular e o fenómeno generalizado da corrupção visou destruir esse partido, em vez de destruir o fenómeno, independentemente do partido. Essa partidarização da justiça, menos concentrada em fazer justiça contra os responsáveis pela corrupção e mais em fazer política para anular um ator coletivo, tem o rosto de Moro.

Um segundo elemento do processo é outro clássico das direitas autoritárias: a existência de um homem providencial, um caudilho que incarna os “valores morais da nação”, que surge aparentemente impoluto, de “fora da política” para pôr ordem na casa. Sérgio Moro quis ser esse protagonista. Sobre o processo afirmou por diversas vezes que era “preciso fugir do debate ideológico”. Sobre a sua entrada na política declarou que “jamais” aconteceria (e ainda recentemente, ao próprio Expresso, reafirmou: “Sim, já repeti várias vezes. Não existe nenhuma possibilidade”). Pouco importa pois que Moro se tenha legitimado dizendo o contrário do que fazia. O facto é que deu uma ajuda inestimável para abrir a porta do palácio presidencial a Bolsonaro. Pelo feito recebeu agora a recompensa. Ao fazê-lo, deu o golpe final no descrédito da “Lava Jato”, da justiça brasileira e da separação de poderes.

Em terceiro lugar, o caldo cultural que ajuda a explicar o que está a acontecer tem muitos dos elementos conhecidos de outras circunstâncias históricas em que o fascismo ganhou apoio de massas. A crise económica, o desemprego e o consequente ressentimento e frustração das chamadas “classes médias”. O “culto da tradição”, mesmo que essa tradição seja apenas uma parte da história e em larga medida inventada (a ideia da “família tradicional” contra as identidades sexuais disruptivas; do patriarcado contra o feminismo, etc...). Uma espécie de irracionalismo que labora a partir de uma teoria da conspiração que dilui e torna irrelevante qualquer distinção entre verdade e mentira (tudo o que contradiga a narrativa posta em marcha é obra da “censura do politicamente correto” e da manipulação dos “media comprados” – pelos comunistas, pelos judeus, pelos gays, pela Venezuela, pelo que quiserem...). O “medo da diferença”, instilado pela polarização de categorias sociais e apoiado em diferentes formas de racismo (racismo no sentido clássico, mas também de classe, entre regiões, homofóbico e transfóbico...). A apologia da guerra permanente contra o inimigo – o externo mas sobretudo o interno: os “bandidos”, os que vivem “dos subsídios”, os “petralhas”... A defesa da violência como demonstração de força, de coragem, de ação redentora contra a desordem e as injustiças do mundo; a relativização, em nome desse “antipacifismo” social, das liberdades democráticas e de expressão, instigando-se a perseguição e a denúncia do “inimigo interno”, como está a acontecer com o apelo para que os alunos divulguem os vídeos dos “professores esquerdistas” que usam a escola para a “doutrinação”. O culto do chefe (a Bolsonaro chamam o Mito) como a encarnação da “voz do povo”, que estabelece com este uma relação simbiótica sem recurso às mediações tradicionais (o partido, a comunicação social...), mas apenas à suposta “comunicação direta” através das redes sociais, ainda que essa aparente proximidade tenha de ser combinada com a distância simbólica requerida pelo seu estatuto de homem “acima dos outros”, “escolhido por Deus” para comandar os destinos da pátria.

Que quero dizer com tudo isto? Que a esquerda não errou? Que já tudo se sabia? Que estamos apenas perante uma repetição trágica do que já conhecêramos no passado? Que era fácil contrariar esta onda? Não. Quero apenas dizer que é tão cómodo quanto imbecil dizer-se que foi “a esquerda” que produziu Bolsonaro. Pelo contrário, o que produziu Bolsonaro foi, entre outras coisas, a degradação institucional e a aventura em que uma parte das elites brasileiras se lançou quando promoveu a partidarização da Justiça e o golpe do impeachment contra Dilma e contra o PT. Bolsonaro beneficiou também da crise económica acentuada pelas opções liberais e da demissão cívica de uma parte dos democratas. Se sabemos como começou esta aventura, não sabemos como acabará.

Não sou especialista no Brasil e não tenho lições para dar. O novo fascismo será combatido compreendendo-se as suas razões e mecanismos de reprodução. Mas uma coisa, sim, quero afirmar sem hesitação: há aspetos que sempre estiveram à vista para quem quis ver. Quem hoje saúda Bolsonaro, quem o promove a alternativa aceitável ou até saudável (Rio, Cristas, Santana), quem faz o seu elogio ético (como Portas), que não diga, no futuro, que não sabia no que estava a meter-se.