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Expresso

Olhar o monstro nos olhos e vencer

O que está em jogo no Brasil é bem mais que eleger um Presidente. Os últimos dias são já uma pequena amostra do que é o ódio à solta, o ódio a sentir-se amparado pelas instituições, o ódio entusiasmado com o vislumbre do poder, o ódio com a cabeça esticada pelos resultados da primeira volta, com a excitação de ter “um dos nossos” à frente do país.

São mais de 50 os atos de violência política levados a cabo nos últimos dias por partidários de Bolsonaro. Na semana passada, um ativista LGBT e candidato do PSOL foi agredido por apoiantes de Bolsonaro em São Paulo. Em Porto Alegre, uma jovem foi perseguida e, depois de espancada, cravaram-lhe com um canivete uma suástica no corpo. Em Curitiba, um estudante foi agredido na rua, aos gritos de “aqui é Bolsonaro”, por usar um boné do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Moa do Katendê, um mestre de Capoeira de 62 anos, foi assassinado na Bahia depois de defender o voto no PT. O clima de milícias está instalado e, na verdade, limita-se a traduzir em gestos as declarações do próprio Bolsonaro, que defendeu no Acre que era preciso "metralhar petralhas" (ou seja, apoiantes do PT) e, ontem mesmo, ter afirmado que o número de mortos e desaparecidos durante o período da ditadura militar “é comparável ao de vítimas durante o Carnaval”, ironizando até com a classificação de "ditadura militar" aplicada ao regime que governou entre 1964 e 1988.

Perante isto, ouço comentadores, também em Portugal, falar em “polarização” entre “dois extremos”, como se, entre Bolsonaro – um candidato que defende a ditadura e a tortura e que põe milícias à solta – e Fernando Haddad – que disputará a presidência encabeçando o campo democrático – houvesse uma espécie de equivalência. Esse discurso perigoso das equivalências (que ouvi, por exemplo, na SIC, mas não só) é já uma forma irresponsável de banalização do extremismo de que Bolsonaro faz a apologia, e diz bastante sobre até que ponto a antipatia contra o PT tolda o olhar e impede de ver o essencial do que está em causa. Mesmo de gente que se supunha minimamente comprometida, ao menos, com a versão liberal da democracia política. Mas não.

O que se passa no Brasil é assustador mas também, como tantos têm insistido, revelador da natureza das suas elites e de como, para manter o padrão de desigualdade e acumulação, elas estão dispostas a prescindir da democracia. Que a bolsa de valores tenha subido com os primeiros resultados da extrema-direita só vem confirmar, contra a opinião canónica de tantos liberais da praça, como capitalismo e democracia não andam de mãos dadas e como há uma burguesia que prefere soluções autoritárias, assim estas lhes garantam, sobretudo em tempos de crise, a manutenção do seu poder económico.

Por isso, a eleição não poderá ganhar-se com a cooperação dessas elites, mas com a disputa do povo. Esta é a hora de todos falarem e não há neutralidade possível. Esta não é uma eleição sobre o PT, sobre o seu legado, sobre a sua política de alianças (aliás desastrosa). É uma eleição para travar o fascismo e, contra ele, reconstruir um campo popular. Isso só se faz sem medo, sem meias palavras, com mobilização nas ruas (com certeza, #EleNão, por mais que isso incomode tantos, acomodados à política de salão), com afirmação de propostas, com disputa das redes, com informação alternativa, envolvendo toda a gente. Que se olhe nos olhos do monstro, mostrando que ele é fraco em propostas, que tem medo do confronto, que é medíocre em tudo, que é um perigo para o povo e que é, literalmente, uma ameaça de morte para muitos, que é ele a insegurança na vida e o crime. Já está a ser. É olhar de frente para o medo em que querem o Brasil e chamá-lo pelos nomes, é disputar a rua e o espaço público, todos os espaços. É juntar forças agora e saber que esta luta é também para lá das eleições, porque é uma disputa funda na sociedade, porque nunca há vitórias nem derrotas definitivas – como vimos nos últimos anos, como será depois. É chamar pela memória, sim, mas sobretudo pelo que está em causa e pelo direito ao futuro.

É possível vencer Bolsonaro e ainda há duas semanas para derrotá-lo nas urnas. Este é daqueles momentos em que ninguém escapa à política, e por mais que tentasse fugir dela, não seria por isso menos marcado por aquilo de que foge. Nem agora, nem depois.