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Expresso

Fictiongram

carta II

Agora já posso escrever outra vez. Há o silêncio para isso. Queres que te conte o resto?

As dores não têm uma explicação exacta, são dores. Como é que se descreve a dor? Contínua, aguda, em pontada, hesitante? Não te sei dizer. Dor para mim é dor. A descrição reduz-se ao seu enunciado. De sexta-feira até hoje tenho dormido mal, muito mal. Sem posição, com sonhos. Imagina que sonho frases inteiras do novo livro que ando a ler. Um absurdo total. Acordo, quero dormir e depois são três da manhã e não me posso mexer. Cada vez que preciso de ir à casa de banho o meu marido levanta-se, sempre gentil, sempre tranquilo, segura-me, diz-me para ter calma, para ir devagar. Ele sente quem eu sou. É a melhor descrição que posso fazer. Despiu-me com todo o cuidado quando viemos para casa. Senti-me uma criança. Uma velha. Foi estranho. Agora estou melhor. Muito melhor. A dor continua e tenho dificuldade em mexer o corpo, o tal corpo. Amanhã vou ao médico tirar pontos. É na costura da cesariana. Outra abertura para tirar um extra que o corpo não queria. Nada de especial. Nada de importante. Apenas um desvio, um ajuste. Com dor. Por vezes, pergunto-me se ainda serei eu. Hoje escrevo pela primeira vez. Para ti. Um beijo