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Domingos Viegas (Jornal do Algarve)

Casa de Odeleite: Uma viagem no tempo até ao início do século XX

  Antigo entreposto comercial vira polo de atração turística. A Câmara Municipal de Castro Marim recuperou o antigo edifício e transformou-o num espaço cultural. Aquela que foi a casa mais rica da freguesia de Odeleite e o centro nevrálgico da aldeia é agora um espaço de exposição e documentação com arquivo gastronómico

 

Durante cerca de duas décadas, a casa de João Xavier de Almeida foi um importante entreposto comercial da aldeia e da freguesia de Odeleite, no concelho de Castro Marim. Era a casa mais rica da freguesia e o autêntico centro nevrálgico da aldeia, localizada nas margens da ribeira com o mesmo nome e a escassas centenas de metros do rio Guadiana.

O edifício, centro nuclear da vida da localidade na primeira metade do século XX, foi adquirido pela Câmara Municipal de Castro Marim há cerca de 12 anos. Depois das obras de requalificação levadas a cabo recentemente, a autarquia castro-marinense transformou-o na denominada Casa de Odeleite e, desde o passado mês de junho, é mais um polo de atração turística do concelho.

 

Espaço recria antigos ambientes

A Casa de Odeleite é, atualmente, uma autêntica recriação histórica, desempenhando a função de centro de exposição, de documentação e, ainda, de arquivo gastronómico. Além da área residencial, utilizada em tempos por proprietários e funcionários, foram recriados outros antigos ambientes e é possível apreciar as áreas de adega, casa do azeite do vinho e do queijo, casa do forno, sala de costura, armazém de milho e alfarroba, entre outros espaços. Foram, ainda, recuperados cerca de 1500 objetos originais (artefactos, móveis...) e outros tantos documentos (correspondência, faturas...) pertencentes ao antigo proprietário, que faleceu em 1933.

"A ideia central é criar um polo de desenvolvimento a partir deste espaço, levando-o a aglutinar várias funções, no propósito de dar a conhecer e promover o interior raiano do concelho", explica o presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, José Estevens, na abertura no livro "A Casa de Odeleite", uma edição da autarquia castro-marinense que resultou da investigação de Eglantina Monteiro e de Veralisa Brandão.

Refira-se que o trabalho desenvolvido contou, ainda, com a colaboração de Francisco Palma Dias, Miguel Costa e Alberto Cavaco, ao nível da análise do conjunto arquitetónico, do vínculo entre o lugar e a alimentação, entre outras áreas. A pesquisa levada a cabo ao longo de vários meses serviu também de base para "construir" o referido livro, que representa um autêntico guia da Casa de Odeleite, cultural, histórico e das tradições que envolvem aquela freguesia.

 

Futura receção para alojamento rural

Aliás, e como frisa o edil castro-marinense, o novo espaço "pretende dar a conhecer um pouco da história da casa, da aldeia, das gentes serranas e, ao mesmo tempo, estimular a descoberta do território na sua variedade e riqueza".

A Casa de Odeleite é um autêntico museu, mas outro dos objetivos é o de que passe também a funcionar, no futuro, como receção de uma original unidade de alojamento cujos quartos ficarão espalhados pela aldeia e, inclusivamente, nas casas dos residentes que estiverem interessados em aderir ao projeto.

"Quero acreditar que este é um passo importante na afirmação da nossa identidade cultural, e um contributo efetivo à promoção do interior do concelho, o qual encerra um conjunto de potencialidades no campo do turismo, podendo constituir uma alavanca para a economia do Baixo Guadiana, com a criação de emprego, fortalecendo o tecido social e a fixação de novas pessoas à terra", sublinha o autarca de Castro Marim.

A ideia de recuperar o edifício, constituído por dois andares, surgiu no âmbito do Programa de Revitalização das Aldeias do Algarve, projeto da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve que inclui mais dez aldeias além de Odeleite.

O edifício localiza-se em pleno coração de Odeleite, aldeia cujas casas "escorrem", como se de uma cascata se tratasse, por uma das muitas encostas que acompanham a ribeira.

"Pode dizer-se que é uma casa típica da serra. Os telhados de níveis diferentes denunciam uma pluralidade de casas e os desmesuradamente longos fazem parecer uma só, quando no interior as paredes desocultam variadas casas, conforme as necessidades de organização do trabalho e da família", refere Eglantina Monteiro, uma das responsáveis pela investigação e trabalho de campo realizados durante o primeiro semestre de 2006.

 

Abstecimento da população e centro exportador

De acordo com os documentos analisados, a amêndoa e a cestaria eram os principais produtos que saíam da freguesia através da agora denominada "Casa de Odeleite". Aquele fruto seco era exportado para diversos países, principalmente para os Estados Unidos. Os cestos serviam, na época, para o transporte dos mais variados produtos.

"A amêndoa e a manufatura da cestaria em cana desempenharam o mesmo papel que o minério de cobre em São Domingos até meados dos anos 60, ou o sal de Castro Marim em tempos muito mais recuados e os minérios da faixa piritosa alentejana que Mértola escoava para o Mediterrâneo", explica Eglantina Monteiro.

Era também na "Casa de Odeleite" que a população local se abastecia de arroz, massa, farinha, tecidos, petróleo, aspirinas, xaropes, sabão, tabaco, rendas, sola, cabedais, entre outros produtos. Estes serviam muitas vezes como moeda de troca da mão fornecida para o fabrico de cestos, para a amêndoa, figo, azeitona e alfarroba, que João Xavier se encarregava de negociar com comerciantes de outros pontos da região algarvia.

"A Casa de Odeleite, apesar de estar associada a um núcleo familiar, foi e continuará a ser um espaço vivo da memória das gentes de Odeleite, que não confina à aldeia mas a um território mais alargado, que grosso modo corresponde à freguesia", frisa Eglantina Monteiro.

Mas visitar a "Casa de Odeleite" e aquela localidade do concelho de Castro Marim não representa apenas fazer uma viagem no tempo até ao interior do Algarve do início do século XX. É também "mergulhar" na cultura e nas tradições daquela freguesia, é conhecer as suas gentes, apreciar o que de mais típico existe naquela zona e saborear a sua gastronomia.

(mais informação em www.jornaldoalgarve.pt)