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À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Tomar parte

O À Parte utiliza todas as divisões de uma casa e dois pátios, o que resulta em grande variedade de acomodação.

José Quitério (www.expresso.pt)

À parte Av. Defensores de Chaves, 14-c Lisboa Tel. 213 543 068 (fecha aos domingos) Quem são, afinal, estes Defensores de Chaves que dão nome a ruas e de quê ou de quem necessitou ser defendida a cidade (então vila) transmontana? A coisa passou-se em 1912. Proclamada a República em 5/10/1910, um forte contingente de monárquicos inconformados conglomerou-se na Galiza e, recebido armamento e algum treino militar, decidiram-se a combater pela restauração monárquica, sob comando do bravo oficial Henrique de Paiva Couceiro. Depois de uma tentativa gorada que teve por alvo a vila de Vinhais, a segunda incursão monárquica, precedida por um levantamento popular urdido pelos párocos realistas, culminou no ataque para a tomada de Chaves. A coluna couceirista, já com artilharia, chegou à vista da vila na manhã de 8/07/1912 e deparou-se com tenaz resistência da tropa governamental (pouca, que a maioria tinha-se deslocado para Montalegre, iludida por manobra de diversão) e de civis armados. Tiroteio em barda, muitas baixas nos dois lados e por fim, passadas nove horas, Paiva Couceiro dá ordem de retirada e acaba a aventura restauracionista. Distinguiu-se na ação o general Ribeiro de Carvalho, que, perante a pequenez da guarnição, não hesitou em distribuir armas aos civis, entre os quais se destacou o dr. António Granjo, futuro presidente do Governo. Deles não reza a história, mas sem os anónimos soldados e o povo armado Chaves não teria sido defendida.

Vamos então para a Avenida Defensores de Chaves, quase no seu início, perto da Avenida Casal Ribeiro. No nº 14-C, o restaurante À Parte. Durante 11 anos, a partir de 1998, chamou-se Tasquinha do Brasileiro, e o espaço era restrito. A invocação brasílica tem a ver com Henrique Pinheiro, natural de São Paulo, casado com Lina Santos, nascida em Chaves, casal que se conheceu na Suíça e se viria a tornar criador e obreiro desta casa. À mudança do nome, em setembro de 2009, correspondeu um enorme aumento espacial, utilizando agora todos os compartimentos e mais dois pátios da antiga habitação, o que resulta em grande variedade de acomodação e ambiente.

A lista dos almoços comporta 6 Entradas, 6 Saladas (4 compostas e 2 simples), 13 Pratos a la carte (7 de Carne, 2 de Peixe, 3 Risottos, 1 Massa) e Pratos do Dia (1 Sopa, 2 marítimos e 3 do talho). A dos jantares é maior, com reforço em todas as secções e sobretudo em risottos e massas.

Trinque-se. "Salada à Parte" (€6,80) temperada com azeite e mel, folhas verdes, queijo fresco e figo seco, este último a conferir um toque original. "Salada de camarão com orégãos" (€6,80), também folhas verdes e beterraba, tudo aspergido com azeite, limão e vinho branco, muito agradável exceto os camarões estarem mornos. "Salada à chefe" (€6,80), boa combinação de alface, tomate-cereja, nozes, lascas de Parmesão e bacon salteado. Qualquer das três, abundantemente servida, serviria de opípara refeição para uma model, mesmo sem ser top. No "filete de garoupa com arroz de tomate" (€7), o peixe obviamente (atendendo ao preço) congelado e pouco viçoso, o arroz molhado e curial, salada de alface. Igualmente salada e um bom arroz nas "pataniscas de bacalhau com arroz de feijão" (€7), porém elas com terrível défice de bacalhau, quase só farinha e salsa. Molho de tomate e manjericão a dar o tom ao prazenteiro "fettucini com camarão, amêijoa e mexilhão" (€7). Muito vestido o "bife parmegiano" (€7), panado, casacão pesado de queijo gratinado, batatas fritas corretas e arroz branco solto. Em correspondência com o preço, pela quantidade e alguma qualidade da carne na companhia de batata esmagada (mash) e brócolos, feijão verde e cenoura salteados, o "rumpsteack" (€15), mai'lo molho de mostarda. Ligeiramente seco, todavia sapidamente afirmativo, o "coelho assado no forno" (€7), assessorado pelos curiais arroz branco e batatas fritas já referidos.

Os doces, em tigelinhas, são mostrados à mesa, andam pela dezena, tudo ou quase em consistência mousseuse, e os provados demonstraram belas execuções. A carta de vinhos, sem datas, marcas medianas e preços baratos, regista 45 tintos, 11 brancos, 3 verdes brancos, 1 champanhe e 1 espumante. Serviço eficiente e alegre, de sabor brasileiro e cabo-verdiano.

Com a cozinha aberta até às 24 horas, Henrique e Lina parece terem descoberto a fórmula ideal, pois a casa regurgita de clientes. A seu favor, de facto, a diversidade da instalação, a ambiência simpática, a gastronomia maioritariamente positiva, o preçário acessível. Pela minha parte, dou parte deste À Parte.



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Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010