Siga-nos

Perfil

Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Retiro bucelense

No Retiro do Raposo, em Bucelas, prove o guisado de carnes de porco, servido no "pote atabafado" e coberto com massa de pão.

José Quitério (www.expresso.pt)

Retiro do Raposo

Rua Vasco da Gama, 32

Bucelas

Tel. 219 694 109

(fecha às quartas-feiras)

Falar de Bucelas - freguesia do concelho de Loures, nas margens do rio Trancão, debruada a leste pela serra do Viso - é evocar impreterivelmente uma excelente região vitivinícola, com especial incidência nos vinhos brancos. Solar de eleição da casta Arinto, uma das melhores castas brancas portuguesas, vive, desde há duas décadas e para felicidade dos apreciadores e obviamente dos produtores, um autêntico renascimento. Da altura do renascimento tardio é a igreja matriz, de Nossa Senhora da Purificação, da segunda metade do século XVI, por muito boa gente considerada um dos mais belos templos das proximidades de Lisboa. De imponência acrescida por se situar num plano acima do nível das habitações circundantes, no seu adro, ligado ao muro da vedação, encontra-se um cipo romano. Continuamos pela Rua Luís de Camões até chegar à Praça Tomás José Machado, um apertado largo com coreto, jardim, bancos e chafariz. Neste, viramos à direita e logo depois à esquerda, já com pequenas placas a indicarem o caminho, breve, para o restaurante Retiro do Raposo. Casarão antigo, sobranceiro à Rua Vasco da Gama, o terreiro defronte permite estacionamento descansado.

Pertença de Esmeralda e Conceição Raposo e de sua mãe Luizete, foi com esta à frente dos fogões que se tornou num verdadeiro restaurante, aproximadamente há 50 anos, o que fora, além de casa de habitação, adega e taberna do avô das duas senhoras que operam na sala (Esmeralda) e na cozinha (Conceição). O espaço restaurativo corresponde a duas salas unidas (há outra suplementar, mais pequena), albergando 80 retirantes, de ambiente acolhedor e amesendação correcta, tendo como principais elementos decorativos, devido aos predicados das duas irmãs, loiça pintada à mão que adorna a parte superior das paredes e dois Arraiolos.

A lista de comidas propõe no essencial 10 pratos de Peixe e 17 de Carne. Predominam os grelhados, mas há lugar para outras técnicas, conforme se verá. As Entradas limitam-se, por assim dizer, a enchidos e presunto, todavia podem-se tasquinhar frutos secos, azeitonas e uma que outra pasta menos habitual, como a de um curioso fruto chamado tamarilho (Cyphomandra betacea).

Comecemos pela "sopa de peixe" (€9), que se toma como prato completo ou se reparte irmãmente: um creme bastante condimentado e ervoso, o estrelado piscícola desempenhado por tintureira, aparentada com o cação, a sair-se airosamente. A responder à chamada o "cherne estufado" (€12), isto é, sem refogado, legítimo, tratado com delicadeza, acompanhado por couve e cenoura cozidas e um louvável esparregado. O "bacalhau à Retiro do Raposo" (€11), afirmativo, lascante e com o azeite da praxe, veio com um séquito animado de azeitonas, alho, ovo, puré de batata (com a inevitável noz-moscada) e grelos. Para quem gosta de feijoadas marítimas, satisfação com a "feijoada de chocos" (€9), apurada e de molho grosso, feijão dito patalão (maior que o normal sem chegar a ser feijoca), molusco às tiras e tenro, achega breve de berbigão e mexilhão; o arroz acompanhante é que revelou demasiada secura. Guisado puxado e muito saboroso de carnes de porco, chouriço, curgete, grão-de-bico, cenoura e batata, o do "pote atabafado" (€9), servido no artefacto de barro e coberto com massa de pão. "Pato à portuguesa" (€9) foi o arroz com ele desfiado lá no meio e acabado no forno; inocente, carenciado de gordura, sem ao menos rodelas de bom chouriço por cima que lhe revelariam o teor sápido. Sobriedade de temperos e assadura qualificada no caso do "borrego assado no forno" (€13), com seu específico sabor, assessorado por cubos de batata que pareceram primeiro fritos e depois rebolados no espesso molho.

A doçaria é um caso sério que nada tem a ver com a trivialidade: cerca de uma vintena de espécimes, com associações variadas de frutas e suas compotas, ovos moles, chila, amêndoa, etc. A carta de vinhos é limitada e sem datas: 30 tintos, 7 brancos (Arintos da região), 4 verdes brancos e 3 espumantes da zona, mais uma italianada adocicada. D. Esmeralda (devidamente ajudada) personaliza o serviço, esclarece dúvidas e exerce a afabilidade.

Um sítio onde se está bem e a bom recato este Retiro do Raposo, fruto do trabalho de três gerações, gastronomicamente positivo e com algumas originalidades, de visita justificada.

Texto publicado na edição da Única de 22 de Maio de 2010