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Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: O luxo bem temperado

Na Casa da Comida, o tártaro de ostras com algas frescas e aipo é um conjunto exímio de sapidez, coerência e leveza.

José Quitério (www.expresso.pt)

Casa da Comida

Trav. das Amoreiras, nº1 - Lisboa

Tel. 213 860 889

(Fecha Sábado e Segunda al almoço e Domingo todo o dia) Fica num daqueles arruamentos repousados que enquadram a setecentista Praça das Amoreiras, graciosamente arborizada e florida à sombra dos arcos terminais do formidável Aqueduto e da sua monumental Casa da Água ou Mãe d'Água. O Jardim das Amoreiras há muito que as não tem - a primeira árvore fora plantada pelo marquês de Pombal, em 1771 -, substituídas por tílias, robínias, castanheiros-da-índia, ulmeiros e outras que tais. Mais precisamente na Travessa das Amoreiras, nº 1, fica então o restaurante Casa da Comida.

Inaugurado em 1976, foi a segunda criação restaurativa de Jorge Vale, um antigo actor de teatro que decidiu dedicar-se inteiramente à sua verdadeira vocação e ainda fundaria mais uns tantos restaurantes. Desde logo marcou posição de relevo no panorama da restauração alfacinha, sobretudo pelas instalações, praticamente inalteradas até hoje. Agradabilíssimos espaços os da zona de espera e das duas salas refeiçoeiras, com o complemento dadivoso do jardim interior, em que todos os componentes alardeiam bom gosto e harmonia requintada. Escrevi uma única vez sobre esta casa, em 1981, e devo declarar que em relação à comida, nas muito espaçadas vezes que lá voltei, nunca ela me entusiasmou. Os herdeiros de Jorge Vale (falecido em Janeiro de 2005), após um período de continuidade, resolveram dar uma volta à situação gastronómica. Surge agora em cena o ainda jovem (n. 1976) chefe de cozinha Bertílio Gomes, que descobri em 2002 no Faz Figura e se tornou famoso no comando culinário do saudoso Vírgula (de Novembro de 2004 a Janeiro de 2009). Pois bem: é ele, desde meados de 2009, o chefe consultor da Casa da Comida, sendo chefe executivo o seu discípulo Bruno Salvado.

A lista de comidas propõe 7 Entradas, 5 Peixes, 5 Carnes e 2 Pratos Tradição (um bacalhau gratinado e uma empada de faisão, do antigamente). Estilo obviamente bertiliano, como se verá.

"Tártaro de ostras com algas frescas e aipo" (€13): na base, o puré de aipo, assente nele a mistura cilíndrica das ostras e das algas finamente picadas, por cima uma espuma à custa da água das ostras, à volta um molho escuro feito a partir do líquido escorrente das algas, num conjunto exímio de sapidez, coerência e leveza. Bonito e bom o "caril de camarão à Casa da Comida, versão 2009" (€14), com um frito de massa de arroz e geleias de líchias e açafrão. Carne da orelhuda desfiada, o fruto corado na frigideira, "quenelle de foie gras" e espuma duriense a comporem a afirmativa "lebre e maçã bravo-de-esmolfe com ar de vinho do Porto" (€10). "Terrina de foie gras com queijo de figo e azeite de chocolate" (€16) em combinação arrojada e sem mácula. Mimado por curgetes e espargos, soube bem o "pastel de massa tenra de santola em geleia de açafrão" (€15).

Uma maravilha marítima o "sargo no seu habitat" (€26), cozinhado na cataplana, amêijoas, berbigões, mexilhões e algas a prestarem-lhe prestimosa vassalagem, tagliolini por companhia terrestre. No caso do "bacalhau à Zé do Pipo, versão Bertílio Gomes" (€21), diga-se que as alterações ao cânone - espuma de batata em vez de puré, acrescentos de rebentos de alho e polvilho de azeitona torrada - até beneficiaram o substrato. Bem as "bochechas de vaca estufadas em tinto, cogumelos e espinafres" (€19), de molho espesso e também batata corada. A nota inusitada do arroz a rechear a carne no "peito de cordeiro assado com arroz de miúdos, grelos e cebolinhas" (€21), felizes continente e conteúdo. Excelente o "pombo na frigideira com arroz de carqueja" (€24), conquanto a descambar para risotto.

Há queijos honestos e os doces são poucos, mas estimáveis (um aplauso veemente para a pêra cozida em mel, seu bolo e gelado de canela"). Carta de vinhos robusta: 100 tintos, 47 brancos, 7 verdes brancos (4 Alvarinhos), 6 champanhes e 5 espumantes. Serviço impecável.

Terão motivo para estar satisfeitos os proprietários da Casa da Comida, tal como estarão os clientes em geral. Usufrui-se do bem-estar de sempre, e agora da capacidade culinária de Bertílio Gomes e da sua criatividade sensata. Tudo bem interpretado pelo comandante diário Bruno Salvado. Salve!