Siga-nos

Perfil

Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Ganhos sem perdas

O Ganhão tem belíssimas entradas, como cabeça de xara e farinheira frita. Destaca-se ainda o prato caldeta de garoupa.

José Quitério (www.expresso.pt)

O Ganhão

Rua Elias Garcia 24/26 Venda Nova, Amadora

Tel. 214 746 226 (Fecha aos domingos) É outra vez o Elias Garcia toponimicamente consagrado e evocado na semana passada. Não se trata de perseguição ou obsessão, apenas singela coincidência, pois agora a rua com o seu nome alonga-se na Venda Nova, Amadora. Para lá chegar, demandem-se as Portas de Benfica, perto das quais, mesmo com as presentes obras a implicarem umas voltinhas, se há-de passar para fora da circunscrição lisbonense. Obedecendo à placa que encaminha para Venda Nova, depois de vistosa rotunda logo se chega à Rua Elias Garcia. No seu início, antes dos edifícios dos Laboratórios Vitória, encontra-se uma casa oitocentista, nºs 24/26, onde mora o Restaurante O Ganhão.

Já completou uma década de vida, fundado que foi em Fevereiro de 2000 por António Simões, lisboeta vindo da informação médico-farmacêutica, que desde logo lhe imprimiu matriz gastronómica alentejana, não exclusiva mas predominante. Há perto de dois anos associou-se-lhe Fonseca Mendes, homem desde sempre nestas lides (recordo-o novinho, à testa do seu Ocarina, no Bairro Alto da primeira metade dos anos 1980), a partir de então responsável pela cozinha, onde não pode deixar de mencionar-se também a cozinheira alentejana Fátima.

No rés-do-chão (o primeiro andar está actualmente destinado à garrafeira), a sala restaurativa, com capacidade para 40 paroquianos, mostra motivos transtaganos como uma grande tapeçaria com cartão de Dórdio Gomes (1890-1976), a característica pintura na madeira da metade inferior da parede e alguns quadros, a par de prateleiras e louceiros a regurgitarem de garrafas, sobretudo do melhor destilado do mundo.

A lista regista (nem sempre há tudo) 15 Entradas, 2 Sopas, 10 pratos de Peixe, 9 de Carne. Em dia fixo, exclusivamente aos almoços: 2ª feira, "açorda de bacalhau" (€8,50); 3ª, "cabidela de frango do campo" (€8,50); 4ª, "filetes de peixe-galo com arroz de tomate" (€9,50); 5ª, "arroz de pato à antiga" (€9,50); 6ª, "cabrito no forno" (€9,50); sábado, "caldo de peixe (garoupa) à moda de Cabo Verde" (€12).

Entrando a ganhar, belíssima "cabeça de xara" (€3,75), fininhas fatias, como deve ser. Ambas válidas, a "farinheira frita" e uma chamada "morcelinha" (€3,50), esta em formato de linguiça, mais escura. Bom "paio de porco preto" (€4,50). Os "ovos mexidos com espargos" (€7,50) dentro da normalidade positiva. Agradáveis homogeneização, untuosidade e piquinho picante no "paté de fígados de aves em LBV" (€4,50). Admirável a mais-valia de finura trazida pelo fruto seco na "pasta de atum com noz" (€3,50). Fora de lista apareceram uns "pezinhos de coentrada", perfeitos.

Excelente realização a da "caldeta de garoupa" (€40/kg), fatias finas de pão seco no forno a forrarem o fundo do prato covo, o caldo saboroso e perfumado por poejos e hortelã-da-ribeira, a posta do nobre peixe em seu esplendor. No forno, com cebolada, um acréscimo de rodelas de chouriço e batatas chips à parte, o "bacalhau à Ganhão" (€12,50/€23) respondeu afirmativamente. O "bacalhau à Elvas" (€10,50/€19) convoca o conhecido "dourado", quase emblema da pousada elvense, mas aqui sem cebola, só com alho, e isso nota-se no sabor excessivamente aliáceo. O "ensopado de borrego" (€10,50/€19) daqui baseia-se na receita da autoria de uma senhora chamada Maria Teresa de Vasconcelos e Sá Grave, publicada (em verso) na revista "Banquete" de Junho de 1972: a originalidade reside em os bocados de carne serem fritos de véspera; resulta muito bem, embora a textura seja naturalmente diferente da habitual. Sápido mas um tanto enjoativo, por via do molho bastante gorduroso, o "lombo de porco assado" (€10,50/€19). Gostoso até mais não o "coelho à Ganhão" (€10,50/€19), estufado em vinho tinto com duas cabeças de alho inteiras e com casca, tudo em equilíbrio.

No capítulo doceiro, comparência dum quinteto de luxo dos conventuais alentejanos. A carta de vinhos é fascinante, tudo datado e com indicação de grau alcoólico. No seu corpo, digamos, central, 137 tintos, 22 brancos, 8 espumantes e 6 champanhes. Depois os ditos descontinuados, poucas garrafas de cada, a preços quase de custo: 124 tintos. Ainda mais 21 tintos, muito antigos. O whisky é objecto de paixão: à volta de 100 marcas, 80 das quais de malt. Contentei-me com um single malt Bruichladdich, da ilha de Islay, marinho e iodado como é timbre dos de lá, mas mais brando que os conterrâneos Laphroaig ou Lagavulin.

No Ganhão ganha-se boa comida e bebida da melhor, em tranquilidade e sem se ser vítima da ganhuça.



Ver mapa maior

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010