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Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Da vaca à vocação

De leitaria a restaurante, o Velho Macedo, em Lisboa, oferece um "bacalhau à Miquelina" que é um dos pratos mais aliciantes da lista fixa.

José Quitério (www.expresso.pt)

Velho Macedo

Rua da Madalena, 117, Lisboa

Tel. 218 873 003 (Fecha aos Domingos ao almoço) Situemo-nos na Rua da Madalena, no troço ascendente compreendido entre o Largo da Madalena e o de Adelino Amaro da Costa (antigo do Caldas). Do lado esquerdo, à beira duma correnteza de prédios de princípios do século XX, com quatro pisos altos e águas-furtadas, bem apessoados, de boa harmonia sequencial. Mesmo em frente da foz da Rua das Pedras Negras, arruamento principal de um xadrez urbano regular de três quarteirões que ligam a Rua da Madalena com a Sé: compensa uma curta incursão para ver o aspecto equilibrado, robusto e afidalgado de muitas casas oitocentistas, com relevo para o Palácio Penafiel cuja frontaria deita já para a paralela Rua de São Mamede. Retrocedendo ao referido renque predial, o nº 117 é o do hoje procurado restaurante Velho Macedo.

O nome reporta-se ao que isto era há sete ou oito décadas, uma leitaria, daquelas que serviam o produto directamente da fonte (havia várias na cidade): lá estava, pachorrenta e dadivosa, uma vaca leiteira, mungida à medida das necessidades da freguesia. Em 1968, o tal senhor Macedo vendeu o estabelecimento a uns familiares do actual proprietário, José João Lima Barbosa, gente originária de Paredes de Coura. Este começou a trabalhar aqui em 1970 (com 13 anos de idade), na ainda leitaria-café (mas também se aviavam copos daquilo que na gíria académica coimbrã se alcunhava de "chá frio"), depois andou por outros estaminés a alargar horizontes, e em 1980 adquiriu a casa, transformando-a em restaurante. E o aspecto que hoje apresenta a salinha restaurativa, que comporta 28/30 utentes, vem desse tempo, um espaço cuidado, claro, com meias paredes marmoriadas, cadeiras cómodas e mesas devidamente revestidas. O casal dá conta de tudo, José Barbosa na sala, sua mulher Adília na cozinha.

Da lista, há que ter em boa conta os Pratos do Dia, dois de peixe e dois de carne. De infalível dia fixo, apenas o "arroz de pato" à quarta-feira, o "pernil de porco assado" à quinta e o "bacalhau com broa" à sexta e ao sábado. Na parte fixa estão registados: 2 Sopas, 6 Entradas, 4 Omeletas, 10 pratos de Peixe e 14 de Carne. Grelhados em maioria absoluta e na área carnária somente vaca e porco nas mais expectáveis variações.

Entrada por uma curiosa "broinha com presunto" (€1,80) e pelas "chamuças" (€0,50) apetitosas e pelos "pastelinhos de bacalhau" (€0,50 cada) a precisarem mais dele e de batata menos em puré. Com o "bacalhau à Miquelina" (€10), um dos pratos mais aliciantes da lista fixa, caímos em pleno Alto Minho, precisamente em Paredes de Coura. Receita oriunda do antigo restaurante courense Miquelina, não tem grande complicação: posta frita em azeite, no mesmo alouram rodelas de cebola e dois dentes de alho a que depois se juntam uma pitada de colorau, uns bocadinhos de salsa e um golpe de vinagre; antes de servir, polvilhar a posta com ovo cozido picado. A execução foi perfeita. Só me pergunto se em vez das batatas chips servidas não seriam melhores e mais fiéis ao original batatas cozidas alouradas na fritura. Outra boa realização bacalhoeira o "bacalhau com broa" (€9,50/€18), mais a bela couve portuguesa salteada e batata assada, valorizado pela maviosidade da broa em camada fina e minuciosamente esfarelada. Arroz de feijão saboroso e banana frita a ligarem bem com o peixe, em toada madeirense, nos "filetes de peixe-espada preto com arroz e salada" (€9,50/€18). "Costeleta de vitela grelhada com grelos salteados" (€9,50/€18), mais batatas chips, a fornecer carne muito qualificada. Sem esquecer o pão frito (conquanto demasiado oleoso), o "coelho à caçadora" (€9,50/€18) mostrou-se em guisado nada puxado e suficientemente saborido. Pele tostadinha, carne saborosíssima, cozinhado superior, companhia variada, grande dimensão sápida no "pernil de porco assado com batatas e castanhas" (€9,50/€18).

Um septeto de doces preenche a alínea. A carta de vinhos está curta: 24 tintos, 6 brancos (unicamente Douro, Dão e Alentejo), 7 verdes brancos (1 Alvarinho) e 1 Espumante.

Não obstante alguma rotineirice da lista fixa, os pratos do dia vão animando o leque de escolhas e, para além de local acolhedor sem pretensiosismos, D. Adília prova que tem vocação e sabe cozinhar muito bem.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010