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Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Boca em Noca

Em Marrazes, Leiria, no Matilde Noca, prove o bacalhau na telha com cebolada, batatas fritas às rodelas e salada mista.

José Quitério (www.expresso.pt)

Matilde Noca Rua do Martingil 157, Marrazes-Leiria Tel. 244 856 073 (Fecha aso domingos) Já não é a primeira visita à povoação de Marrazes, cerca de Leiria, sempre lembrando Jaime Cortesão. Porquê o arrimo ao grande historiador e uma das maiores figuras culturais e cívicas portuguesas do século XX? É que Jaime Cortesão (1884-1960), no "Guia de Portugal" (volume II, 1927), assegurava: "Realmente a mulher dos arredores de Leiria, robusta, musculada, apenas um pouco excessivamente alta de peitos, com o aveludado sem par do seu olhar, (...) a sua beleza tão fina e senhoril, (...) é decerto a mais formosa da Estremadura e uma das obras-primas da natureza em Portugal." Marrazes dista três quilómetros da cidade do Lis e do Lena, num alto. E o escritor, de pena habitualmente austera, a insistir: "Merece a pena fazer a excursão só para admirar o belo tipo das mulheres."

Não se tentou justificar Cortesão. De mulheres, parca a vista e nulo o consumo. O único fito era o gastronómico, e o que se procurou e achou, depois de algumas voltinhas marrazenses, foi o restaurante Matilde Noca.

Está num sítio privilegiadamente elevado, sobranceiro a duas estradas que se encontram. Instalação vasta, desafrontada, moderna, luminosa. Precedida por grande espaço de recepção, com um cantinho dedicado às crianças, o salão restaurativo estende-se em amplidão não desprovida de comodidade, orientado para as duas paredes de vidro que dão para a esplanada bordejante e nos trazem à mesa (correctamente aparelhada) a formidável panorâmica sobre o casario da parte nova da cidade e sobre o morro do formoso castelo leiriense. Tudo o que agora se encontra data de 2004, fruto das grandes obras nessa altura levadas a cabo pelo patrão Fernando Valente. O inicial Matilde Noca, de feição bem mais modesta, fora fundado em 1991 por Fernando e sua mãe Matilde, senhora já de larga experiência no ramo e cujo pai tinha sido proprietário de uma então conhecida tasca que dava pelo nome de Ti Noca.

Da lista, comece-se pelos pratos de dia fixo: segunda-feira, "bacalhau na telha" (€13) e "costeleta maronesa" (€15,50); terça, "cabrito assado no forno" (€14,50) e "medalhões de tamboril" (€ 13); quarta, "cabidela de galo caseiro" (€9) e "grelhada mista de peixe" (€12); quinta, "arroz de tamboril" (€22, 2 p.) e "lombinhos de porco preto com bacon" (€12,50); sexta, "polvo no forno" (€11,50) e "lombinho de vaca recheado com camarão" (€13,50); sábado, "cabrito assado no forno" (€14,50), "espetada de tamboril com açorda" (€13) e "arroz de pato" (€9). Depois são 10 Entradas (incluindo sopa, mariscos, enchidos e queijos), 8 pratos de Peixe e 12 de Carne. Pouca cozinha cozinhada, muitos grelhados, muitos bifes e correlativos, insistência numa insólita mistura de carne de vaca com camarões.

Prove-se. A "tábua completa de entradas" (€16) trouxe em tigelinhas saladas de ovas, de feijão-frade, de polvo, de orelha, de legumes com maionese, croquetes, rissóis, moelas e azeitonas, tudo frescal e simpático. "Chouriço assado" (€4) tipo industrial potável. Num recipiente de barro em cima de tábua, o "bacalhau na telha" (€13) significou uma bela posta frita, com cebolada, batatas fritas às rodelas e salada mista, em execução positiva. No "bacalhau assado com migas" (€11), novamente tudo bem com o gadídeo, mas às migas, simplesmente de couve e broa, faltou azeite, sal e graça. Só por fugir à epidemia do "à lagareiro" já está de parabéns o "polvo no forno" (€11,50), afirmativo, com batata assada e migas iguais às anteriores. Excelente matéria-prima carnal na "costeleta mirandesa" (€15,50), grelhada, molho levemente avinagrado e excesso de acompanhamentos: batata a murro, fatia de pão grelhado, açorda de camarão e novamente as migas. Um bom naco de carne com uma cinta de bacon no "lombinho de vaca recheado com camarão" (€13,50), acompanhado por solto arroz de sultanas e pinhões, batatas chips e salada, os camarões a não valorizarem nem ofenderem. "Rosbife grelhado com açorda de camarão" (€12) a mostrar-se em tassalho alto e de qualidade, com brócolos cozidos e a mesma açorda de camarão da costeleta, de textura mal homogeneizada e camarões apenas simbólicos.

Há farta doçaria e os exemplos agradaram. O vinho aqui é bem tratado, apresentado (carta) e servido: só tintos são 175. Serviço geral atento, esclarecedor e simpático.

Não foi possível travar conhecimento com o cabrito e a cabidela, que podiam ser diários para animar a lista. O resto é o exposto, pequenos senões rectificáveis e um local apetecível.