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Expresso

A vida de saltos altos

Papa não me aquece nem me arrefece (com vídeo)

Serei só eu a sentir total indiferença pela visita de Bento XVI a Portugal? Passo a explicar por que reajo assim... há mais de 17 anos.

Paula Cosme Pinto (sapato nº38) (www.expresso.pt)

Os meus problemas com a Igreja católica começaram numa aula de História. Dizia a professora que os senhores que eu julgava serem amigos de toda a gente tinham atirado para a fogueira uns bons milhares de pessoas inocentes, só porque não queriam rezar o "Ave Maria" e todas aquelas outras coisas que na catequese me diziam ser uma opção. Foi o início do fim da minha crença.

A hora da confissão, a partir daí, não correu melhor. Com aquela idade, lembro-me de ter dito a um padre: "Desculpe, mas não tenho nada para lhe contar. Não persegui nem matei nenhum menino como fizeram na Inquisição". Ele mandou-me rezar 10 pais-nossos. Eu não percebi porque o tinha de fazer. A sinceridade não merecia castigo.

Na missa, além de não perceber 80% do que o padre dizia, o facto de virem no fim pedir-me dinheiro para a obra do Senhor - quando eu já tinha visto o padre a conduzir um valente BMW - também deixava o meu espírito pré-adolescente muito pouco satisfeito. Pior: numas férias em família lembro-me de ter tentado visitar uma igreja e pedirem-me para pagar bilhete. O meu pai fez um escândalo. Eu concordei: a casa de Deus não devia ter a porta aberta para todos?

Pecado? Com muito gosto!

Cresci mais um bocado e apercebi-me de que a Igreja católica censurava o uso de preservativo, que a minha mãe me ensinara ser essencial. "Crescei e multiplicai-vos", apregoavam os católicos. Será que esta máxima também se adaptava às doenças sexualmente transmissíveis (DST)? Antes ir para o inferno aos 80 anos, depois de uma vida de plena satisfação sem doenças, do que ir para o céu aos 20, com sida. A minha mãe concordava.

Depois, conheci o grande pecado. E não é que gostei? Afinal, porque censurariam os senhores padres o prazer? Nunca cheguei a perceber, tal como não percebo porque é que não hão-de casar-se. Sendo eles os homens de Deus, deveriam ser os primeiros a aumentar o rebanho, gerando novas vidas. Há quem discorde.

Comecei a carreira e fiz uma reportagem sobre a vida das crianças em colégios internos católicos. Ouvi relatos de valentes tareias e torturas nocturnas. Não eram reformatórios, eram escolas bem pagas por pais ausentes. Quando perguntei a um padre se admitia ter usado a violência, respondeu-me: "Como padre católico tenho o dever de educar, mesmo que isso signifique bater-lhes". Escusado será dizer que os escândalos de pedofilia já não me causaram surpresa.

Admito fazer parte do grupo de pessoas indefinidas que gosta de acreditar que existe algo superior a nós. Que me traga alguma esperança nas piores alturas. "É o ópio do povo", já dizia Karl Marx. Respeito os verdadeiros católicos, censuro os que o são só para inglês ver (como aqueles que se casam na igreja só "porque a festa é bonita"). Mas, por tudo isto que escrevi, lamento dizer que a passagem do Papa Bento XVI por Portugal não me aquece nem me arrefece. Gostei dos sapatos vermelhos, lá isso tenho de admitir.