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Expresso

A vida de saltos altos

O fenómeno dos genitais carecas

Mafalda Santos (sapato nº38)

Os anos 90 e o novo milénio trouxeram consigo uma série de alterações a nível estético que, até então, eram consideradas "normais", ou que toda a gente via com bons olhos. Os homens deixaram de exibir as suas fartas cabeleiras peitorais para passarem a assumir que também eles têm preocupações pilosas e capilares e as mulheres puseram de lado itens como lâminas de barbear - que utilizavam para rapar as pernas e um pouco por todo o corpo - para passar a aderir massivamente à cera, às depiladoras elétricas e, mais recentemente, à depilação definitiva a laser, num ataque mortal e sem piedade ao pelo.

Hoje em dia não há mulher, adolescente ou pré-adolescente, que não tenha o seu ritual de iniciação na esteticista cada vez mais cedo, seja para eliminar um incipiente buço, definir sobrancelhas ou purgar o mais pequeno pelo que se vislumbre na zona púbica. E se é certo que ninguém gosta de ser confundido com um homem macaco - bom, tirando talvez o Tony Ramos que até fez carreira como galã de telenovelas - a verdade é que os pelos já tiveram a sua função de providenciar calor ao corpo e eliminar eventuais bactérias, mais apurada e ativa do que hoje. A chamada depilação brasileira, onde se elimina tudo ou quase tudo na zona púbica, ganha cada vez mais adeptos, principalmente entre as jovens e mulheres que optam por uma vulva careca de reminiscências infantis, a qual garantem ser "mais higiénico", "estético" e aprazível a nível sexual. A questão é, será mesmo assim?

Da floresta amazónica ao deserto do Sahara

Mesmo com as suas funções reduzidas, os pelos são essenciais e não desapareceram do nosso corpo após milhões de anos de aperfeiçoamento, - por mais que insistamos em exterminá-los por completo - por algum motivo. E se nos anos 70 e 80, a moda passava por exibir fartas e generosas zonas púbicas em formas triangulares, semelhantes a densas florestas amazónicas, no novo milénio encontramo-nos no patamar oposto e nunca as esteticistas tiveram tantas mãos a medir perante os pedidos de "tire tudo" importado do outro lado do Atlântico, deixando genitais áridos e a descoberto.

Um estudo realizado em França e publicado no British Medical Journal (BMJ) a semana passada, mostrou que o aumento da depilação da zona púbica - nomeadamente a extração completa do pelo - contribui para um aumento das doenças sexualmente transmissíveis, provocadas por lesões causadas pela depilação e que facilitam a propagação de infeções. E se no passado as vulvas se encontravam protegidas por um denso cobertor de "lã", que ajudava a amenizar este fenómeno, hoje em dia adotaram formas mais polidas, lisas e suaves, evoluíram com os tempos e modernizaram-se, mas isso não significa que o seu aspeto infantil e careca seja o mais adequado, principalmente quando os comportamentos sexuais não o são. Não é à toa que quando somos crianças não possuímos pelos na zona púbica, afinal, a função para a qual eles supostamente se encontram ali não existe, ou seja, a ausência de relações sexuais.

Afinal, é dos carecas que elas gostam mais?

Desengane-se se pensa que o fenómeno "máquina zero" genital tem como principais adeptas apenas as adolescentes e/ou jovens. Num estudo realizado pela Universidade do Indiana, os investigadores Debby Herbenick e Vanessa Schick, concluíram que 60% das mulheres americanas entre os 18 e os 24 anos tendem a andar completamente rapadas na zona púbica e que cerca de metade das mulheres americanas, com idades compreendidas entre os 25 e os 29 anos, partilham dos mesmos hábitos. E quando se fala em genital, fala-se também em glúteos, em períneo e na região anal. Não há pelo que resista quando a tendência é ainda fomentada pela preferência de roupa interior e biquínis cada vez mais reduzidos, filmes e séries que incitam à prática, ou citações de figuras públicas que promovem este tipo de comportamento. (Kim Kardashian, celebridade norte-americana, assumiu que, "O único sítio do corpo onde devemos de ter pelos é na cabeça.")

Sobre Portugal e os hábitos dos portugueses no que diz respeito à depilação genital e anal - em ambos os sexos - não há dados, (eu, pelo menos, não os possuo), mas a moda é cada vez mais pública e menos tabu. E se muitos ainda torcem o nariz à tendência, mostrando-se os Velhos do Restelo da nudez capilar nos genitais, outros há que garantem que é dos carecas que gostam cada vez mais, pois ao praticá-la, conseguem promover o tamanho do pénis e lábios vaginais, que desta forma parecem maiores, ou por eliminarem evidentes sinais de envelhecimento - como os indesejáveis pelos/cabelos brancos.

Afinal, tudo depende do ponto de vista.

Autoras: Ana Areal, Liliana Coelho, Paula Cosme Pinto, Sofia Rijo, Solange Cosme

Editora: Plátano (coleção Livros de Seda)

Preço: 11,80€ em loja, 10,62€ se for adquirido via site da Editora Plátano

Páginas: 158

ISBN: 9789727708598

Saiba mais sobre o livro:

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