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A vida de saltos altos

Maria no País das Relações: O outro lado do final feliz

Antigamente, o homem saía de manhã e ia à caça de javalis. Voltava para a sua caverna, para onde já tinha devidamente arrastado (pelo cabelos) uma bela donzela e eram felizes para sempre. O mundo era simples e organizado e tudo funcionava bem.

Solange Cosme (sapato nº39) (www.expresso.pt)

Há pouco tempo veio parar-me às mãos, de uma forma completamente inadvertida, um pequeno papel escrito por um miúdo de 12 anos. Nesse papel lia-se o fantástico título: "Como conquistar a Maria". Fiquei deslumbrada. Naquele pedaço de folha pautada desfilava um conjunto de passos que o nosso pequeno amigo chegou à conclusão que necessitava de seguir para conquistar a Maria. Alguns já estavam devidamente assinalados como cumpridos. Não sei quem é a Maria, mas imagino-a uma pequena miúda de 11 ou 12 anos a deambular no recreio da escola rodeada com as amigas, sem saber que está a ser vítima de um predador. O meu conselho para a Maria? Miúda, aprende rápido que eu não duro sempre.

Amor - coisas do antigamente

Que o ser humano (homens, mulheres e afins) é um caçador, isso eu já sabia. É-nos uma coisa inata. Antigamente (parece que assim há muitos anos), o homem saía de manhã da sua caverna, calçava os seus ténis da Nike (ou qualquer coisa similar que ele tinha na altura - parece que não havia marcas) e ia à caça de javalis. Ok, os mais tímidos traziam uns coelhos. Voltava para a sua caverna, para onde já tinha devidamente arrastado (pelo cabelos) uma bela donzela e eram felizes para sempre.

O mundo era simples e organizado e tudo funcionava bem.

Hoje em dia tudo mudou. Homens e mulheres andam confusos e assustados. A história hoje é bem mais complexa.

O mundo que a Maria vai encontrar é bem diferente. Tudo começa normalmente com o chamado "boy meets girl". No início ela é gira, divertida e torna-se a mulher da sua vida. Passam imenso tempo juntos, enviam emails, mensagens, telefonam a toda a hora só para mandar beijinhos e saem mais cedo do trabalho só para terem sexo. São felizes e vão viver juntos para sempre. Até que a Maria começa a queixar-se que ele agora lhe liga menos, ele começa a substituir as tardes com ela por mais trabalho e ambos passam a fazer menos sexo (pelo menos um com o outro). Um dia discutem porque ela convida-o para ir jantar a casa dos pais dela, ele recusa, e acabam a relação.

A Maria deixa de ser gira (afinal de manhã também tinha olheiras e afinal também tinha celulite), deixou de ser divertida (afinal também o chateia sempre que quer ficar a ver futebol com os amigos) e por tudo isto, afinal já não é a mulher da sua vida.

E ambos vão começar tudo de novo.

O fim, a ressaca e o recomeço

A Maria vai comer chocolates durante três semanas e sair à noite com as amigas.

Ele vai ligar a todas as ex-namoradas numa tentativa desesperada de dormir com alguma (mesmo com as feias e que, entretanto, engordaram), e ao fim de algum tempo vai voltar a lembrar-se porque é que acabou com elas, ligar à Maria para lhe dizer que podem ir jantar a casa dos pais dela, mas a Maria já casou com o tipo giro que trabalhava no andar por cima do dela e vai ser mãe.

E com a idade começa a ser mais difícil arrastar a donzela (e também encontrar uma donzela), porque se o fizer pelos cabelos ela provavelmente vai processá-lo - e tem de voltar a fazer listas de supermercado onde se incluem: levar ao cinema, oferecer-lhe uma flor ou comprar-lhe uma bola de Berlim (isto na versão dos 12 anos, porque se for na versão dos 30 anos é mais: levá-la a Paris, oferecer-lhe um anel de diamantes e jantar no Eleven).

Com sorte um dia o nosso amigo acaba com a 34º namorada, volta a ligar às ex-namoradas todas numa tentativa desesperada de dormir com alguma, e descobre que a Maria se divorciou do tipo do andar de cima que, entretanto, encontrou uma Catarina mais nova e mais gira (que se tinha separado de um tipo que não queria ir jantar a casa dos pais dela), e vão jantar fora.

Pode ser que, com sorte, a Maria volte a ser a miúda gira, divertida e que se torne a mulher da sua vida. Pode ser que, com sorte, ambos tenham aprendido alguma coisa e tenham um final feliz.