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Expresso

A vida de saltos altos

Maria abandonada no metro de Lisboa

A velhice é uma segunda infância e deixar ao abandono alguém tão frágil é mais grave do que lhe tirar a vida. Eis a história de Maria, abandonada no metro de Lisboa...

Sofia Rijo (Sapato nº39) (www.expresso.pt)

Ela tem olhos azuis e cabelo ralo e branco. Muitas primaveras já lhe passaram pela pele enrugada e nas memórias vive uma juventude onde só ela sabia o que fazia. "Se soubesse o que eu corria!" Confessou-me. E eu soube... e vi-a com 20 anos, a caminhar de vestido cintado, cabelo penteado e um baton vermelho, a sorrir aos piropos dos que passavam por ela na rua... Até aposto que usava uns sapatos de salto alto... vermelhos... e cantarolava uma música romântica de um ídolo de brilhantina no cabelo.

Parei. Não consegui fugir pelo meio da multidão. Quis falar com ela, saber o que tinha para me contar. Cada ruga soletrava-me uma história, mas mais estórias contavam os olhos rasos de lágrimas quando lhe perguntei pela família. Chama-se Maria, como tantas outras, mas tenho a certeza que em nova não ía com qualquer uma. Imagino-a a soltar gargalhadas de sorriso brilhante, agora perdido.

Pergunto-me por onde caminhamos, como passamos todos os dias ausentes da realidade e da solidão em que vivemos (e fazemos viver) mas também me pergunto que família se sente impune ao abandonar uma mãe ou uma avó, ao frio de um Inverno, na solidão da velhice, numa viuvez de princípios.

Do alto do nosso ego fazemos tão pouco e enchemo-nos de orgulho umbilical, cada vez que nos alienamos e distanciamos mais da realidade isenta de valores de respeito e caridade social.

A velhice é uma segunda infância, e deixar ao abandono alguém tão frágil é mais grave que lhe tirar a vida, é simplesmente roubar-lhe a alegria de fazer mais do que simplesmente sobreviver, ser feliz e viver a velha infância com a dignidade que lhe devia ser oferecida como troféu de entrega a uma vida de tantos anos.

Os idosos são as raízes da sociedade, e cada vez que os ignoramos e passamos ao lado daquele sofrimento alheio, perdemos enquanto seres humanos e faltamos ao respeito aos nossos antepassados, esquecendo-nos que o livro da vida se escreve no tempo... e cada dia a mais se junta ao calendário da velhice que, de mão estendida, espera por nós.