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Expresso

A vida de saltos altos

Espero que o Sócrates me peça em casamento

Sinto que o meu amado se aproveita de mim. Todos os meses me rouba descaradamente uma parte totalmente exorbitante dos meus rendimentos e a partir de Junho exige mais.

Solange Cosme (sapato nº39)

O Sócrates era aquele genro que todas as mães queriam ter e todas as raparigas casadoiras queriam como pretendente. Quando em 1999 transitou para a pasta de ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território, cargo que ocupou até 2002, o Sócrates ganhou uns pontinhos na minha consideração. Eu era uma miúda de 20 anos, cheia de sonhos, e ele era aquele político, divorciado, cheio de pinta, com um sorriso fácil, um defensor do desporto que deixou de fumar e que ainda por cima trabalhava com o ambiente. Tudo o que uma miúda pode querer. Se o Sócrates fosse um carro era um Nissan Leaf - Líder, amigo do ambiente, giro e acessível...

Eu assumo. Votei no Sócrates para Primeiro-Ministro. Não que perceba alguma coisa de política, por isso votei no mais giro. Coisas de gaja. Pode ser um critério estúpido, mas é o meu critério e é tão válido como os outros milhões de critérios utilizados para votar no Sócrates. E foi aí que me comecei a sentir enganada...

Primeiro o Sr. engenheiro não era alegadamente engenheiro e foi protagonista de diversas polémicas, enquanto ministro, como a questão da co-incineração de resíduos tóxicos ou a questão do licenciamento do Freeport. Depois foram aquelas alegadas mentirinhas pequeninas que não lembravam a ninguém, como o facto de ter negado alguma vez ter sido sócio de Armando Vara na empresa Sovenco, e depois vir outra vez a público dizer que sim, senhora era verdade. São as pequenas coisas que me chateiam. Um dia tive um namorado que em duas alturas diferentes me disse que tinha ido ver o mesmo filme ao cinema. Acabei com ele. Detesto mentiras pequenas e sem sentido. Normalmente escondem coisas graves que eu nem quero saber.

O mesmo se passou com o nosso Primeiro-Ministro.

A minha desilusão sentimental continuou com a alegada tentativa de Sócrates controlar todos os meios de comunicação social e afastar os jornalistas incómodos. Menos um ponto. Sócrates menos sexy.

E agora, 10 anos depois de ter iniciado esta minha relação, sinto que a mesma entrou em crise - tal como todo o país que o Sócrates governa. Hoje em dia sou trabalhadora por conta de outrem e trabalhadora por contra-própria (numa tentativa desesperada de me manter à tona de água, como milhares de portugueses) e todos os dias me levanto de manhã e - mesmo não sendo religiosa - agradeço a todas as entidades superiores não estar na fila no desemprego.

O meu príncipe encantado transformou-se num sapo.

Sinto que o meu amado se aproveita de mim. Todos os meses me rouba descaradamente uma parte totalmente exorbitante dos meus rendimentos e a partir de Junho exige mais. Não me ajuda a pagar a casa, com o aumento do IVA os almoços, jantares e transportes ficam mais caros, e tenho a leve impressão que não me vai sobrar grande coisa nem para ir ao cinema no fim de semana. Tendo em conta que sou solteira e não tenho filhos, sou ainda obrigada a descontar mais e pagar tudo sozinha. Tudo isto em nome do "esforço patriótico" para o equilíbrio das contas públicas.

Assim, acho legítimo assumir que o Sócrates me enganou. E dizem os bons costumes desta terra que um homem que engana uma mulher deve casar com ela e assumir as suas responsabilidades. Claro que me reservo o total direito de não aceitar este pedido de casamento pois com o histórico do sr. primeiro-ministro em termos de "faltas à verdade" este casamento tem tudo para fracassar. No entanto, pelo sim pelo não, aguardo o pedido. É que pelo menos lavava a minha honra e não me sentiria totalmente defraudada desta relação de 10 anos!

Sr. Primeiro-ministro, agora é consigo: depois de todos os "apertos" que me tem exigido, prepare o anel e pode ir colocando o joelho no chão. É a sua oportunidade de demonstrar que, apesar de tudo, ainda é um cavalheiro.