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Expresso

A vida de saltos altos

Em Queda Livre

Margarida Damião Ferreira (sapato 37)*

A minha mãe para mim, roxa de veias, depois da discussão:

"Desaparece-me da vista, Teresa."

E para o meu tio, que assistia:

"Sabes como é quando aos 20´s achas que tens sempre razão???".

O meu tio, incrédulo, mas confirmante:

"A sério?!?! Teresa, achas que tens sempre razão?"

Eu, inqualificável:

"Acho!"

Naquela altura, não percebi a intolerância da minha mãe.

Alguns anos depois, um amigo mais velho:

"Sabes Teresa, eu já estive aí e continuei a subir na escada da certeza. Cheguei a saber tudo. E, vinte degraus acima, caí. Voltei ao piso zero. Hoje não sei nada. Talvez nunca sintas isto, mas não consigo dizer nada com essa convicção."

Naquela altura, não percebi de que queda falava.

Hoje, quase dez anos caídos, eu para uma amiga mais nova:

 "Não sei. Não sei se é assim ou não. Não sei se acredite no que oiço, se no que vejo. Não sei se devo falar, se devo agir. Não sei se sinta, se pense. Não sei se é o que parece. Simplesmente, não sei..."

Foi então que escancarei a experiência. Apanhei-a em flagrante delito. Essa ladra que chega disfarçada, dia-ante-dia, enfraquece as forças do corpo, infiltra-se pelos poros, trespassa os ossos e assalta a alma para roubar o saber.

Ali estava eu, pobre de é-assim´s, a mendigar tenho-a-certeza´s, sem esperança de voltar a ter sei-que´s, quando chegou a realidade...não bateu à porta, mas apresentou-se mal a vi. Disse que vinha superar a experiência.

Eu, assustada, para a realidade:

- Superar como?!?...Se ela já levou tudo o que tinha?!? Não tenho nada para ti...estou vazia!

A realidade, de expressão troçadeira, para mim:

- Eu sei. Mandei-a à frente. Sou muitas, precisava de espaço. Agora posso entrar!