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Expresso

A vida de saltos altos

Em busca da virgindade perdida

A himenoplastia - ou reconstrução do hímen - não é só uma cirurgia plástica para salvar a vida de mulheres submetidas a culturas machistas, é uma cirurgia plástica para esconder a falta de honestidade das mulheres e aperfeiçoar a estupidez masculina.

Solange Cosme (sapato nº39) (www.expresso.pt)

Quando penso que já nada me choca nas diferenças constantes entre homens e mulheres, eis que me surge sempre mais um tema. E o tema é ainda mais relevante quando são as próprias mulheres que se sujeitam voluntariamente a essa discriminação alegando as razões mais absurdas do planeta. Talvez seja eu que tenha os meus conceitos trocados. Talvez.

O tema foi-me inicialmente apresentado como uma cirurgia que salvava vidas. A abordagem foi qualquer coisa como "realmente ao que se têm de sujeitar as mulheres muçulmanas por terem nascido numa sociedade tão retrógrada! Há mulheres que são mortas ou rejeitadas da própria família por já não serem virgens e que são obrigadas a submeterem-se a cirurgias para recuperar a dignidade". Por uns momentos apeteceu-me voltar a escrever sobre estas sociedades machistas que tratam as mulheres de forma indigna, mas confesso que essa vontade me passou logo a seguir. Quando descobri que na nossa própria cultura "ocidental e evoluída" acontecem coisas bem piores.

A himenoplastia - ou reconstrução do hímen - não é só uma cirurgia plástica para salvar a vida de mulheres submetidas a culturas machistas, é uma cirurgia plástica para esconder a falta de honestidade das mulheres e aperfeiçoar a estupidez masculina.

O ritual do sangramento da virgem

O hímen não é nada mais do que uma pequena membrana que se encontra no interior da vagina das mulheres e que, supostamente, qualquer mulher que não tenha tido relações sexuais com penetração deverá ter intacta. Digo supostamente porque há uma dezena de outras razões para uma mulher não ter hímen, como a prática desportiva desde criança ou mesmo ter simplesmente nascido sem a membrana. Acontece que, culturalmente, foi associado que quando a "desfloração" ocorre, esta deverá ser acompanhada pelo derramamento de sangue (oriundo obviamente do rompimento da membrana) e que deixa o macho satisfeito por ter sido o primeiro a possuir aquela fêmea. Acontece também que, segundo os médicos, mesmo mulheres que são virgens e que mantém o hímen intacto podem não sangrar (se a membrana for muito fina) ou sangrar tão pouco que o acto passará despercebido. Ora temos a confusão armada! É que macho que é macho tem de ter uma virgem para desflorar na noite de núpcias. E então como é que vai mostrar o lençol manchado de sangue aos amigos?

Virgindade, conceito do século passado? Talvez não!

Estou certa que, tal como eu, muitas pessoas devem pensar que hoje em dia, esta questão da virgindade já não é sequer tema. As mulheres iniciam a vida sexual cedo, tal como os homens, e está tudo mais preocupado com as doenças sexualmente transmissíveis ou com a gravidez em adolescentes do que com o facto da pobre noiva ser virgem ou não. Até as Noivas de Santo António já não precisam de ser virgens (sim, parece que as coitadas eram sujeitas a um exame médico)! Mas afinal, parece que isto não é bem assim.

Segundo alguns artigos que li, inclusive um recentemente publicado pela BBC, as mulheres que procuram este tipo de cirurgia não são só as muçulmanas que temem pela vida, depois de um pequeno "momento apaixonado". Muitas mulheres sujeitam-se a esta cirurgia pois não são capazes de admitir que, "sim senhora já tiveram parceiros sexuais e fazem com o seu corpo o que bem entenderem e quem não gostar pode seguir o seu caminho". São uma espécie de "boazinhas encapotadas", uma espécie de "bulímicas sexuais" que não têm coragem de admitir que comeram o bolo de chocolate e que agora o tentam vomitar à força toda para se manterem magras.

Surgem comentários (e desculpas) como "eu tive 10 vezes relações sexuais com o meu antigo namorado, mas sei que foi um erro e gostava muito de voltar a ser virgem" ou "tive relações sexuais com o meu namorado mas agora descobri que gosto de outro e não tenho coragem de lhe dizer que já não sou virgem" ou pior ainda "eu e o meu namorado decidimos ser virgens até ao casamento, mas eu estive de férias na República Dominicana e já não voltei virgem". Tudo isto é só desonesto e completamente idiota.

Infelizmente parece que ainda existem muitas mulheres que não sabem fazer uso da liberdade que têm e se agrilhoam a si próprias. A virgindade não está no corpo! Está na cabeça, no coração - e até na consciência - de cada uma.