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Expresso

A vida de saltos altos

Desculpem, mas pequenina não é bom!

Paula Cosme Pinto, sapato nº38

Volta não volta passa-me uma pelos olhos e dou por mim a respirar fundo, a pôr a boca de lado e a franzir o sobrolho enquanto penso: Mas será que vou ter de levar com uma destas outra vez? Quando há uns anos me diziam que com a idade se perde a tolerância para gerir estas situações, eu achava que a minha seria ilimitada. "Há sempre forma de contornar a coisa", dizia do alto da minha energia juvenil. Mas hoje percebo que não.

Se há coisa que me tira do sério é gente pequena. Não de altura, mas de atitude. Gente de mente rala, de pequenez mesquinha. Como aqueles que não conseguem lidar com o sucesso dos outros. Ou, pior, que usam deliberadamente o sucesso dos outros para tentar chegar a algum sucesso pessoal. Chateiam-me aquilo a que muitos chama de 'aproveitanços'. Os oportunismos adornados de grandessíssimas boas intenções. Muito comuns na gente pequena.

Complicam-me com os nervos (expressão que herdei da minha avó Laura) as aparências próprias da gente pequena. A diferenciação de tratamento, baseada na imagem ou no Dr. antes do nome. Sinceramente, nunca vi um país com tantos doutores e engenheiros. E, vai-se a ver, mal puseram os pés na faculdade. Mas como usam fato e gravata (ou casaquinho de peles, com pérolas falsas ao pescoço) e até andam num belíssimo carro, devem ser tratados melhor. Pior: os próprios fazem questão disso. Um ciclo vicioso. Enfim, de gente pequena.

Portugal dos pequeninos?

Irritam-me também os pequenos poderes. Porque gente grande de valores nem sequer puxa desses galões, como se fossem ouro. Não precisa disso. O respeito não se adquire dessa forma, mas sim com atitude de gente grande. Irritam-me as mil e uma histórias que vou ouvindo de todas as áreas profissionais e mais algumas, em que o chefe tem prazer em fazer a vida negra ao empregado, cada vez mais com ameaças veladas no silêncio da caixa de email. Porque na verdade, um confronto cara a cara é demasiado pesaroso para a gente pequena.

É em alturas como a que atravessamos atualmente que se percebe quem é a gente pequena e a grande. Quem são os que sobrevivem por mérito próprio e os que só ficam com a cabeça de fora porque passaram por cima de alguém para chegar à tona.

Vivemos cada vez mais no Portugal dos pequeninos. Tristemente, o mesmo Portugal que podia ser dos grandes. Dos nobres de atitude. Dos que não invejam em silêncio, corroídos pela vida alheia. Dos que não vivem em função do que o outro vai pensar. Dos que não se acham no direito de julgar. Dos que que não tomam os outros por burros. Dos que sabem que ninguém é mais do que ninguém, porque na realidade somos todos o mesmo. Pessoas. Só que há as que são grandes. E depois há as pequenas. É um caminho mais fácil, com menos pedras. A não ser as pedras que se levam na consciência para a almofada... quem as leva. E eu já não tenho tolerância para gente assim.

Fica o desabafo.

 

Autoras: Ana Areal, Liliana Coelho, Paula Cosme Pinto, Sofia Rijo, Solange Cosme

Editora: Plátano (coleção Livros de Seda)

Preço: 11,80€ em loja, 10,62€ se for adquirido via site da Editora Plátano

Páginas: 158

ISBN: 9789727708598

Saiba mais sobre o livro:

Um livro lançado... em Saltos Altos (vídeo e fotogaleria) Blogue mais feminino do Expresso chega às livrarias (vídeo)

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