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Expresso

Também pediríamos ao Ronaldo para dançar twerk?

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Pela primeira vez a Bola de Ouro – atribuída pela France Football ao melhor jogador do mundo – contemplou também uma futebolista. Ada Hegerberg foi a primeira mulher a receber tal galardão, num momento considerado histórico no universo da modalidade. Mas, em plena recepção do prémio, foi-lhe perguntado se sabia dançar twerk. Podemos considerar isto uma piada inofensiva?

“Foi uma piada e quando lhe expliquei isto ela percebeu”, tentou explicar o DJ Martin Solveig depois do episódio. Claro que percebeu. Basta pensar que estamos habituadas a levar com piadas deste género há séculos, obrigadas a ouvir, calar e tantas vezes até mesmo a sorrir para não sermos ainda mais agredidas (e os tipos de agressão são tantos, não se resumindo à violência física. O desrespeito é um deles). Habituámo-nos até a achar realmente piada a este tipo de apreciações e sugestões que nos ridicularizam, e a considerá-las inofensivas, por mais que lá no fundo saibamos que por trás do tom de troça está uma pesada raiz de desdém. Durante séculos não é que não tenhamos questionado tudo isto, simplesmente não tínhamos espaço para o fazer em segurança. Hoje, estão criadas condições que nos permitem fazê-lo correndo menos riscos, até porque o tratamento igualitário é um direito conquistado aos olhos da lei (da lei à prática real a conversa é outra). Mas já não chega questionar, é preciso dizer basta para que o paradigma mude.

Mesmo que este comentário não tenha sido dito propositadamente com má intenção, o seu conteúdo é altamente simbólico e sintomático da desvalorização que recai sobre o sexo feminino quando mulheres são distinguidas em atividades, competências ou posições habitualmente atribuídas ao sexo masculino. Tal como em tantas outras modalidades, o futebol ainda é um universo de homens. Por mais que mundo fora existam cada vez mais mulheres futebolistas e equipas femininas a fazerem percursos profissionais de excelência, esta é a realidade no que toca à percepção sobre os protagonistas válidos deste desporto.

Desmontar esta ideia enraizada de que este é um universo deles, e que elas têm menos valor enquanto atletas, não vai ser fácil. E piadinhas desta estirpe são apenas exemplo claro desse descrédito e paternalismo, que continua a remeter as mulheres para aquilo que é a construção social em torno das dimensões aceitáveis e apropriadas a quem nasce com uma vulva entre as pernas. Ser sensual e sexual, enquanto objeto de prazer e fantasia alheia, é apenas uma delas. Não é ao acaso que a sugestão que lhe foi feita tenha sido especificamente o twerk, uma dança que nos remete para tudo isto.

Era suposto que se dirigissem a esta mulher estritamente como uma atleta de alta competição durante a entrega de uma distinção pela sua performance desportiva. Um prémio que pela primeira vez foi atribuído a uma mulher mas que fica manchado precisamente por uma graçola misógina saída da boca de quem minutos antes dizia a frase: “quero pedir a todas as jovens mulheres que acreditem em vós mesmas”. Caro Martin Solveig, não é fácil acreditarmos no nosso potencial quando nos expõem ao ridículo em praça pública apenas porque somos mulheres. Quem o faz, também não acredita realmente.

Ada Hegerberg foi reduzida ao seu corpo ao ouvir um pedido como aquele. E o seu corpo não foi sequer encarado como uma ferramenta da modalidade a que dedica a sua carreira, foi encarado de forma sexual ao ser-lhe pedida uma dança que tem esse cariz. Sim, haverá muito provavelmente uma dimensão sensual e sexual na vida desta mulher. Mas não, este não era o contexto para se apelar a ela. E um comentário destes, tão desajustado à situação, não pode ser encarado como uma simples piada inofensiva, é uma enorme falta de respeito. Embora totalmente inaceitável, surge com tamanha leveza porque foi assim que o mundo nos ensinou a tratar as mulheres. Muito mudou nas últimas décadas, é certo, mas não é suficiente. E episódios como este devem ajudar-nos a refletir sobre as subtilezas do machismo que são altamente tóxicas para todos nós.

O que realmente interessa saber e que no meio disto foi ficando perdido: Ada Hegerberg, norueguesa, com apenas 23 anos, é uma estrela do futebol feminino. Recordista de golos na Liga dos Campeões (15), já conquistou este título quatro vezes. Foi também distinguida com o Prémio de Melhor Jogadora da UEFA na Europa em 2015/16. Agora, acaba de ser eleita a Melhor Jogadora do Mundo 2018 pela icónica Bola de Ouro, que pela primeira vez na sua história decidiu premiar atletas do sexo feminino com performances e percursos de excelência. A esta futebolista, um aplauso pelo seu.