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Expresso

2019: agenda dos lavores femininos continua a ser vendida

d.r.

Publicações como esta continuam a alimentar construções sexistas sobre papéis e obrigações de homens e mulheres. E, nitidamente, o da mulher é na cozinha, a limpar a casa ou a tratar da aparência física, tal como nos tempos do Estado Novo, quando esta agenda era êxito de vendas. Onde ficam os homens no meio disto? Num mundo cada vez mais igualitário, que tal substituirmos o nome ‘Maria Raquel’ por ‘Mário e Raquel’?

Voltemos atrás no tempo: este tipo de agendas eram pródigas a ensinar o mulherio sobre a alegria de manter em harmonia o mundo doméstico, desde como tirar nódoas impossíveis da roupa do marido e dos filhos, a gerir as despesas do dia na mercearia ou à “arte de abafar e reprimir os espirros” (adoro esta...), porque isso de fazer ruído não era coisa muito elegante para uma senhora. A isto juntavam-se charadas e palavras cruzadas para os tempos livres, obviamente, para fazer no recato do lar em conjunto com o esposo (provavelmente porque era ele quem detinha a inteligência para os conseguir fazer, digo eu que não sou de intrigas).

Enfim, escusado será dizer que anos 50, 60, 70 e demais décadas pautadas pelo ambiente bolorento do Estado Novo, tudo isto fazia sentido. Ao contrário do homem, provedor financeiro da família, o lugar da mulher era na esfera do lar, casada e honrada, a parir crianças e a criá-las como objetivo máximo de vida, com a responsabilidade exclusiva da manutenção diária da casa e da educação dos filhos. Ser uma “esposa ideal” e a “dona de casa perfeita” não eram apenas objetivos relevantes nas vidas das nossas avós e mães, eram obrigações. Sem direito a livre arbítrio.

Os seus interesses raramente podiam aspirar ir mais além, tirando, é claro, aquelas que vinham de famílias mais vanguardistas que apostavam na sua educação (mesmo que depois as suas carreiras fossem feitas a ferros). Existiam também as que pertenciam a classes mais baixas e que tinham de trabalhar fora de casa para ajudar ao sustento da família, e que por isso acumulavam as duas responsabilidades. Mas não podemos dizer que esta vida fora de casa fosse uma questão de pura vontade profissional, era uma questão de sobrevivência. Durante longas décadas do século passado, poucas eram as mulheres intelectualizadas, e as que o eram não tinham propriamente um caminho fácil, eternamente levadas a escolher entre a expectativa do papel que a sociedade lhes conferia ou um caminho de vida alternativo, num mundo considerado de homens.

Pessoas: o mundo mudou e vocês não deram conta?

Posto isto, a velhinha Agenda Doméstica Maria Raquel tinha um público alvo bastante concreto e de enorme dimensão. A questão é que o mundo mudou. E não foi apenas para as mulheres, foi também para os homens. Hoje, o mundo doméstico deixou de ser uma obrigação feminina para ser um domínio e tarefa de todos nós. Se queremos continuar a publicar produtos como este, então que os adaptemos à contemporaneidade. Não faz sentido que uma agenda sobre a vida doméstica seja um conteúdo dedicado exclusivamente às mulheres, tal como não faz sentido que os homens não sejam contemplados enquanto público alvo. Pergunta para queijinho: porque raio há de um homem que gosta de ler sobre dicas de limpeza ou receitas de culinária ter de comprar um livro que se chama Agenda Maria Raquel? Não haverá um formato mais abrangente?

Tal como escrevi por aqui no ano passado, estou certa de que haverá muito mercado para este tipo de publicações, e que provavelmente muitas das pessoas que as compram nem sequer param para questionar a mensagem implícita. Mas olhando para esta agenda – que apenas me choca por ser um produto pensado, editado e posto à venda em plena viragem para 2019 – dou por mim a ter de vontade de gritar esta pergunta: então e os homens, não há espaço para eles nisto do universo doméstico? Já agora, um universo que continua a ser um peso forçado na vida de mais de metade da população do planeta (regra geral as mulheres), que ano após ano se continua a ver braços com muitas horas de trabalho não pago por dia graças também a este tipo de estereótipos (quando falamos em universo doméstico é também disto que estamos a falar, por mais que a tendência seja esquecermo-nos desta parte).

Mudar a cor da capa para azul não chega

Insistirmos numa capa como esta, que o único esforço que fez de 2018 para 2019 foi alterar a cor de fundo, não chega. O problema não o é cliché feminino do cor-de-rosa, que agora surge em tom de azul. O problema é continuarmos a alimentar este saudosismo salazarista dos tempos das aulas dos “lavores femininos”, em que era esta a responsabilidade de vida das mulheres do nosso país. E alimentarmos também esta imagem feminina da mulher à antiga, compostinha na roupa e na maquilhagem, como se fosse o exemplo único de “elegância feminina” a seguir (alguém me explica?), em vez de nos dirigirmos à mulher real do século XXI, com cada vez maior liberdade e diversidade estética. Pessoas da Porto Editora, isto já não faz sentido.

Nada contra a existência de uma agenda doméstica, entendam. Tal como nada contra quem a compra e dela desfruta por livre vontade. Mas não continuemos a direcionar este tipo de conteúdos para um género em concreto, inibindo os demais de fazerem parte desta dimensão da vida, e alimentando estereótipos sexistas sobre os papéis de homens e mulheres na sociedade. Não custa assim tanto fazer melhor que isto, acho eu.