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Expresso

Da Google para o Barreiro: o mundo a mudar?

O que é que a gigante Google e a pequena assembleia municipal do Barreiro têm em comum? À partida, pouco. Mas na última semana não foi bem assim. De um lado e do outro, em diferentes escalas, cidadãs juntaram as suas vozes para dizer basta e exigir mudança. E em ambos os casos o problema tinha a mesma base: situações de violência cujo principal alvo é o sexo feminino.

De um lado foi criado o grupo de ação cívica “Ação Contra a Violência de Género – Barreiro”, com o objetivo de travar uma situação abusiva que dura há 15 anos, sem que as autoridades acionem mecanismos viáveis para a travar. Um homem tem vindo a atacar repetidamente mulheres, perseguindo-as e agredindo-as na via pública. De acordo com os relatos, na sua maioria bastante emotivos, já foram apresentadas cerca de 50 queixas à polícias na última década, mas como o agressor sofre de esquizofrenia, nenhuma medida concreta foi tomada e o homem permanece à solta.

“O espaço público é um espaço de liberdade, não é um espaço de medo”, ouviu-se na reunião da assembleia municipal do Barreiro, onde várias mulheres relataram publicamente as suas histórias e as consequências das mesmas nas suas vidas. Desde o medo de sair à rua aos ataques de pânico e demais efeitos psicológicos causados não só pelas perseguições e agressões, como também pela situação de impunidade e liberdade do agressor, que continua a representar uma ameaça. No ar ficou a pergunta de conclusão: “Estão à espera do quê, que ele mate alguém?”.

Do outro lado, no universo Google, mais de 20 mil trabalhadores participaram numa greve a meio do dia de trabalho, em escritórios de vários pontos do mundo. Uma ação de protesto organizada por mulheres, e que depois contou com a participação massiva também dos homens. Porquê? Para demonstrar o desagrado geral quanto à forma desigual com que homens e mulheres são tratados na empresa. Já em 2017 os ânimos tinham ficado acesos quando James Damore, engenheiro da Google, escreveu um manifesto onde dizia que os homens eram mais inteligentes que as mulheres. Também há uns tempos, as discrepâncias salariais entre géneros na Google geraram uma onda de indignação. Agora foram as revelações de uma recente investigação do New York Times que funcionaram como gota de água.

A união faz a força?

O artigo em causa contava como a empresa pagou a engenheiros para deixarem a empresa depois de terem sido alvo de denúncias de assédio e abuso sexual. Ou seja, de acordo com a investigação, depois de provadas as situações abusivas, em dois casos estas foram abafadas com recurso ao pagamento de uma avultada “indeminização” (uma delas de 80 milhões) atribuída ao agressor para rescindir o contrato. A política de privacidade da empresa exigia também o sigilo das vítimas quanto ao que se passava lá dentro. No caso de Andy Rubin (o criador do sistema Android, acusado de forçar uma mulher a sexo oral), a sua saída foi feita com elevados elogios públicos proferidos pela Google sobre as suas competências.

Não só a pausa no trabalho para o protesto teve uma adesão enorme, como em diferentes cidades houve um incentivo para a partilha de histórias. E quem foi seguindo no Twitter, teve a oportunidade de ouvir relatos de inúmeras trabalhadoras que contaram publicamente as situações abusivas de que tinham sido alvo em contexto do seu trabalho na empresa. Uma empesa quem em comunicado tenta ao mesmo tempo limpar a sua imagem, afirmando em comunicado que nos últimos dois anos "despediu 48 funcionários devido a assédio sexual dentro das relações laborais, entre os quais 13 gestores seniores e superiores.”

Claro que há diferenças no mediatismo e na dimensão destas duas ações, mas por mais distintas que elas sejam, é muito curioso assistir a movimentos conjuntos de pessoas que decidem bater com o punho na mesa para dizer que já chega. Que ganham coragem ao sentirem-se fortalecidas quando percebem que, afinal, não estão sozinhas. Esta coragem leva a que cada vez mais gente ouse questionar a habitual ordem das coisas, num exercício de consciência quanto à injustiça e inaceitabilidade de muitos destes paradigmas instituídos, por mais antigos e socialmente tolerados que sejam. Pessoas que partem do seu problema individual e que se unem porque percebem que na realidade este é problema estrutural. E que o bem maior acabará, inevitavelmente, por nutrir efeitos no seu bem pessoal. Que percebem que o velho lema de “a união faz a força” não é descabido, bem pelo contrário: várias vozes fazem mais barulho do que apenas uma. E que pedem contas, pública e oficialmente, a quem tem de resolver a situação, passando-lhes a bola e obrigando-os a assumir a responsabilidade pelo problema. E com isto, obrigando-os também a assumir que existe um problema.

Se há um ano e meio era difícil que alguma destas vozes fosse ouvida ou tida em conta, hoje já não é assim. E se há algo digno de aplauso no movimento #MeToo, é o poder desta partilha de narrativas enquanto catalisador de ações concretas fora do mundo virtual. O #MeToo já não é apenas um movimento das redes sociais, é um movimento do mundo real. E muito ainda está para vir. Claro que isto não basta, e que a mudança é lenta, não estivéssemos nós a tentar andar ao contrário com uma engrenagem que sempre girou noutra direção. A mudança é penosa para muitos, escusado será dizer. A mudança mexe com privilégios, mexe com status quo, transporta-nos para um cenário desconhecido e isso gera insegurança. E, é claro, com o medo vem a resistência. Mas por mais que o mundo continue a resistir, e até de forma bastante violenta, a mudança está a acontecer. Cada uma à sua maneira, que aconteceu na Google e no Barreiro são provas disso.