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Expresso

O ‘beijo na avozinha’ e o esgoto da hipocrisia da nossa sociedade

Nojento e imoral. Duas das muitas palavras que podem descrever o escrutínio e difamação pública de que o Professor Daniel Cardoso tem sido alvo após a sua participação num debate televisivo. Acham errado que ele tenha dito que não está certo forçar uma criança a beijar adultos? Eu diria que errado é o facto de esta pessoa estar a ser assediada, devassada na sua vida privada, insultada e agredida das mais variadas formas. Errado, minha gente, é este comportamento medieval em 2018.

Já perdi a conta ao rol de comentários inenarráveis que li. E há várias coisas gravíssimas a ter em conta nisto: a generalização da prática do desrespeito, o nível de violência com que este acontece e a indiscritível hipocrisia do mesmo, principalmente o daqueles que tanto têm apregoado o perigo da difamação, mas que agora não se coíbem de o fazer ao vomitarem ofensas e injúrias em espaço público contra este homem. Por outro lado, mais uma vez a leveza com que o fazem e a assunção de que insultar, caluniar, injuriar e devassar a vida privada de outrem pode passar impune. Caríssimos, não pode. E o nosso Código Penal é bem claro nisso. Curiosa também a vontade de sangue de alguma imprensa e inaceitável a forma como alguns media pegaram no tema em busca de audiências fáceis, e fizeram arranques de textos com frases como “é professor universitário, defensor do poliamor e fotógrafo erótico amador”. O que é que os seus hobbies, opções sexuais e demais aspectos da sua vida privada têm a ver com as suas competências enquanto investigador e com o tema sobre o qual opinou? Se isto não é uma simples manobra de clickbait não sei o que será. Que vergonha de jornalismo tendencioso, este.

Depois vale a pena refletir sobre o que realmente deixa a generalidade das pessoas incomodadas, começando pelo desconforto provocado por um raciocínio que não entendem e que mexe numa matriz intocável da moral e bons costumes: a instituição família. Aquela cuja honra defendemos com unhas e dentes como se fosse uma santidade, e cuja aparência mantemos tantas vezes para fora, mesmo quando os comportamentos mais odiosos acontecem no seu seio. Junta-se a isto a desconfiança pelo desconhecido e por aquilo que não vai ao encontro do que nos foi ensinado. Mas como dá muito trabalho pensar num ponto de vista com o qual não concordamos ou desconhecemos, nada como partir para o discurso de ódio como resposta imediata, além do escrutínio e partilha massiva de imagens privadas da pessoa em causa. Basicamente, como se fossemos todos uns bullies adolescentes da escola secundária. Não somos miúdos, mas somos certamente seres pequenos e primários ao termos atitudes destas, como se a vida em sociedade não tivesse o respeito e a tolerância pelo próximo como pilares.

Ainda impera uma imagem estereotipada do macho alfa

Depois há, claro, ainda a questão da construção da masculinidade. É muito fácil perceber que Daniel Cardoso é também atacado porque a sua aparência física não se coaduna com a norma totalmente construída daquilo que deve ser a imagem do “macho”. O macho heterossexual, claro, porque o resto já se sabe é de caráter duvidoso (entendam o tom de ironia). Nem tampouco com a imagem construída do académico/investigador respeitável, homem, branco, meia-idade e de fato clássico. É muito curioso e irónico que, por exemplo, o Professor Coimbra de Matos tenha reiterado – e muito bem - as palavras sobre a desvalorização dos perigos do contacto forçado, mas que ninguém se dirija a ele como uma “aberração”, “panasca”, “degenerado” e “pedófilo” e insultos que tais. Porque será?

Tenham um mínimo de sensatez e percebam que a única coisa que o Professor Daniel Cardoso fez foi pôr em cima da mesa uma questão que poucos querem ter em conta: a autodeterminação das crianças quanto ao seu corpo e os perigos de as obrigarmos a forçarem contacto físico e demonstrações de afetos com um adulto, seja ele a avozinha, o tio, a tia, os amigos dos pais ou um desconhecido. O raciocínio é apenas básico, e se pensarmos que a larguíssima maioria dos abusos sexuais com crianças acontecem dentro do seio familiar (quase 90%, diz a OMS), não é difícil chegar a conclusões. Mas, mais uma vez, aparentemente é mais fácil cuspir ódio e fazer parte da carneirada do que parar dois segundos para pensar de forma tolerante numa ideia que não é igual à nossa.

Mas como não sou psicóloga, deixo as explicações para os parágrafos em baixo escritos por quem tem formação válida para dar uma lição sobre isto. A Vânia Beliz, que dedica boa parte da sua carreira ao estudo destas matérias e ao trabalho direto com crianças e adolescentes, poderá ajudar-vos a perceber melhor o que está em causa ao se forçar uma criança a “beijar a avozinha e o avozinho”:

Faz sentido forçar um criança a dar um beijinho ou qualquer outra demonstração física de afeto a um adulto?

Não devemos forçar ou obrigar as crianças a formas de cumprimento que possam ser desconfortáveis para ela, penso que nenhuma família terá dúvidas disso. Isso não significa que não cumprimentem as pessoas com as regras que cada família estabelece, existem certamente muitas formas de cumprimento, até mesmo sobre a sua supervisão. Mas se a criança apresentar recusa, principalmente recusa constante, em relação à proximidade de determinada pessoa, devemos ficar atentos. Sem deixar de ter em conta que isto se pode dever a inúmeras causas e que cada caso é um caso. Ouvir a criança, e ter em conta o seu desconforto, é essencial.

A longo prazo, o que está em causa enquanto mensagem subliminar?

A criança deve ser ensinada que o seu corpo é único e especial e que apenas devem tocar nele as pessoas da sua confiança. Não há problema se os familiares (de confiança da criança) lhe derem banho, a colocarem ao colo e a beijarem, mas isso deve acontecer se a criança estiver bem com essa relação. Forçar a criança ou obrigá-la a uma exposição que não lhe seja confortável, pode ser perigoso e tornar-se traumático.

No que toca a elementos da família, o caso muda de figura?

Se a criança apresentar resistência e/ou alterações de comportamento após a permanência com determinadas pessoas devemos tentar perceber junto das crianças o porquê. Reforço, é mesmo muito importante ouvir a criança em vez de ignorar o seu desconforto. Podemos igualmente ser bem-educados ao cumprimentarmos verbalmente as pessoas, como é também viável que esse cumprimento seja feito com contacto físico, se a criança manifestar essa vontade. Não há, porém, também nada de mal em crianças que correm para o colo dos avós, tios e demais figuras adultas, porque esse comportamento espontâneo pode ser simples indicador de que tudo está bem. Mas existem casos de resistência, de mudança de comportamento, e são estas últimas que nos devem manter alerta.

A autodeterminação quanto ao corpo é válida para crianças?

As crianças têm direito à sua opinião e vontade, mas são os seus educadores os responsáveis por ela e pelo seu bem-estar. A criança deve ser capacitada para se proteger de qualquer tipo de abuso e violência e isso passa por ela aprender a distinguir conceitos importantes como intimidade, relacionamentos abusivos, pessoas de confiança. Existe um perigo muito grande nas generalizações porque cada caso é único e apenas nos podemos proteger com o que nos dizem os estudos e investigações: a maior parte das situações de violência sexual a crianças envolvem pessoas próximas da criança, sejam elas quem forem, incluindo familiares. O papão não é o ‘velho do saco’ ou outros exemplos piores que habitualmente damos para estas situações. A educação sexual poderá ajudar as famílias na tarefa de apoiar e reforçar os comportamentos de prevenção.

* A psicóloga e sexóloga Vânia Beliz é a autora do recém-lançado livro “Chamar as coisas pelos nomes - Como e quando falar sobre sexualidade”