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Expresso

Lição da semana: vítimas de abuso sexual, fiquem caladas

O que é que podemos aprender com os casos Mayorga&Ronaldo e Ford&Kavanaugh? Eu não a aceito, mas a lição é simples: mais vale as vítimas ficarem caladas, porque nisto da imparcialidade há sempre um “mas” na vossa direção. O mundo apregoa que estas agressões são inadmissíveis, mas não está preparado nem para proteger as vítimas, nem para aceitar a raiz do problema. Quando se mexe com privilégios, a resistência à mudança é quem mais ordena.

“Aterrorizada.” Vale a pena relembrar o adjetivo dito por estas duas mulheres que, embora não se conheçam, têm algo em comum: fizeram uma denúncia de abuso sexual que envolvia alguém com muito poder. E escusado será dizer que ambas têm razão para se sentir assim. Uma não consegue sequer regressar à sua própria casa, porque está a ser alvo de ameaças de morte. A outra foi alvo de um hediondo escrutínio público, onde “oportunista” e “puta” foram das coisas mais mansas que lhe ouvi chamar.

Escusado será dizer que uma denúncia de abuso sexual é algo muito grave, uma acusação também, e os julgamentos fazem-se em tribunal. Totalmente de acordo. O que realmente me parece irónico são todos aqueles que falam em imparcialidade e de se deixar a justiça fazer o seu trabalho, mas que depois têm um “mas” para falar sobre a potencial vítima da agressão. E que se esquecem que cada vez que questionam a vítima nas suas ações, palavras e índole, não estão a fazer mais do que a serem parciais. Basicamente, a desacreditá-las e humilhá-las em julgamento popular.

Os juízos morais de raiz preconceituosa fazem parte da desconfiança histórica que recai sobre quem denuncia uma agressão sexual. E quem passa por elas sabe perfeitamente disto, não é ao acaso que tantas pessoas prefiram ficar caladas do que terem de enfrentar a bola de neve de culpa, vergonha, medo, injustiça e impotência provocados por esta desconfiança. Cada vez que automaticamente usamos um “mas” na exclusivamente direção da vítima como ponto de partida para a análise da denúncia, estamos ora a pôr a sua palavra em causa, e portanto a chamar-lhe mentirosa, ora a responsabilizá-la pelo crime de que foi alvo e a menosprezar o seu sofrimento e consequências físicas, psicológicas e emocionais. Por outro lado estamos automaticamente a retirar gravidade ao crime e à pessoa que o cometeu.

Foi isto que muitos fizeram cada vez que, por exemplo, optaram por questionar “mas por que é que ela aceitou o dinheiro?”, sem questionarem “mas por que é que ele quis pagar para ela estar calada?”. Ou quando optaram por dizer “mas esta gaja é obviamente uma oportunista”, sem se pensar na hipótese “mas este gajo obviamente acha que por ter dinheiro pode sair ileso de um crime”. Quando os “mas” funcionam só para um lado, estamos automaticamente a ser injustos e tendenciosos. E a gigante discussão que estes casos geraram, com tanta gente dona e senhora da razão a vomitar opiniões e juízos públicos, apenas serviu para reforçar esta mensagem nefasta a futuras vítimas e às vítimas que sofrem em silêncio: o mundo ainda não acredita em vocês.

Sexismo e abuso de poder

Poder. Talvez seja esta a palavra que melhor resume isto do assédio e do abuso sexual. E não estou a falar apenas do ato em si, falo de toda a construção social que nos rodeia e que assenta num mundo que ainda é dominado por homens. Um mundo cheio de assimetrias entre géneros (mas não só), que se traduzem em desigualdade de oportunidades, de dignidade, de disponibilidade financeira, de tratamento, de expectativas no que toca os papéis de cada um, de esforço, de liberdade individual, até mesmo a de expressão. Homens e mulheres, governos, instituições e até mesmo a própria justiça foram ensinados a compactuar com isto, encarando tantas destas assimetrias com a simples ordem das coisas. Acontece que chegamos ao momento do rebenta a bolha e há quem esteja demasiado cansado desta pescadinha de rabo na boca. Não sejamos é ingénuos: a resistência à mudança vai ser cada vez mais feia e violenta.

O movimento #MeToo veio dar voz ativa às vítimas de abuso e assédio, gerou uma onda de coragem nunca antes vista e criou um sentido de união, pertença, empatia, aceitação e força. É mais fácil navegar contra a maré quando há mais gente a remar o mesmo barco. Mas se por um lado há cada vez mais pessoas - mulheres e homens - a quererem compreender o que está em causa, desenganem-se os que acham que as ondas não vão tentar abalroar o barco. O preconceito está instalado dentro de todos nós, e embora o mundo até diga de forma generalizada que o assédio e o abuso sexual são inadmissíveis, a verdade é que ainda não está disposto a perceber a dimensão real do problema, nem muito menos as causas que o tornam tão comum e socialmente aceite. Acatar isto significaria aceitar desfazer a pirâmide do abuso de poder.

Claro que mexer na tal suposta ordem normal das coisas gera medo e confusão, e que isto não vai mudar de um dia para o outro. É um processo, e exige reflexão, autoquestionamento, alterações de comportamentos, adaptação e, acima de tudo, consciência e bom-senso, tanto por parte dos cidadãos, como também de toda a máquina de política, legislação e justiça que nos rodeia. A questão é que por mais longo que este processo possa ser – porque vai demorar, não tenho dúvidas disso - já não vai parar. E a lição que nos tentaram passar nestas últimas duas semanas é simplesmente inaceitável. Antes de cuspirem juízos de valor, parem para pensar na consequência global dos mesmos, por favor.