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Expresso

A falta de empatia é um dos grandes males dos nossos tempos

Os últimos dias têm sido pródigos em opinião mediática que tenta ridicularizar as ativistas feministas, ora porque demoram demasiado a ponderar reações públicas num caso de denúncia de violação, ora porque afinal são histéricas e oportunistas quando o fazem. Houve, por exemplo, quem considerasse o #MeToo um “mito” mas também quem comparasse este ativismo a “reuniões de tupperware”. É uma pena que se gaste tanta energia a tentar silenciar e menosprezar quem luta pela igualdade de género, esquecendo-se que “elas” (e também eles, já agora) não lutam só por elas. Lutam por todos nós.

Uma lição de história poderia ajudar-nos a perceber, em menos de um minuto, coisas essenciais, começando pelo óbvio: se não fossem os movimentos feministas nenhuma de nós estaria aqui a discutir isto publicamente sem temer consequências. Nenhuma de nós poderia votar e muito provavelmente ainda éramos legalmente propriedade de um pai, irmão ou marido, obrigadas a submissão ao mesmo. Não existiriam mulheres nas universidades, nem carreiras profissionais no feminino, nem tampouco estas seriam chamadas a dar opinião e analisar sobre o mundo que as rodeia. Foi precisamente graças a pessoas que se insurgiram sobre todas estas formas de injustiça e de violação de direitos humanos que chegámos aos dias de hoje. Muito foi conquistado, é certo, mas, inquestionavelmente, ainda há tanto por fazer. E não conseguir abraçar os desafios do presente contexto, compreendendo que isto não é mais do que uma continuidade do muito que já foi feito, é também uma forma de desrespeitar o que está para trás. E de desdenhar dos direitos que temos hoje à conta de quem lutou por eles.

Desfazer séculos de mentalidade patriarcal não é algo que se consiga fazer em cem anos, ou no nosso caso, em menos de meia dúzia de décadas. Mas felizmente são cada vez mais as pessoas que decidem lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, pela queda de privilégios injustos e desajustados, mas totalmente instituídos. Tão instituídos que percebo que tenhamos dificuldade em questioná-los e até mesmo em perceber quão nefastos eles são para as nossas próprias vidas. Mesmo que não nos afetem a nossa capacidade de sobrevivência - importa não esquecer que é isso que está em causa para muita gente – eles tocam-nos também a nós das formas mais subtis.

Ignorar dá menos trabalho

Há quem diga que a ignorância é uma bênção quando é sinónimo de ingenuidade, e até consigo perceber este ponto de vista. Realmente o desconhecimento, com tudo de negativo que acarreta, pode ter o condão de reduzir ansiedade e expectativas, levando-nos a viver mais conformados e confortáveis com os males que nos rodeiam se não soubermos que existem outras possibilidades. Escusado será dizer que isto está longe de ser um cenário ideal ou minimamente justo, bem pelo contrario. Mas existe. Depois há aqueles que preferem, por opção, viver no conforto desconfortável da sombra desta suposta bênção. Porque por mais egoísta e ilusória que seja esse tipo de ignorância quando não é genuína, a verdade é que dá menos trabalho e chatices. Muitas das coisas que vou lendo, vomitadas em tom de desdém contra o ativismo que se faz nos dias de hoje, têm por base esta forma de egoísmo.

É simplesmente mais fácil fazer parte da maioria e embarcar na diversão do carrossel que despreza a alteração de paradigma. Mesmo que lá no fundo se saiba que o dito não vai fazer mais do que andar às voltas num círculo fechado e que isso, eventualmente, nos vai prejudicar também a nós e aos nossos. Enquanto se consegue pagar este bilhete, a malta deixa-se andar por lá, a rir dos que esperam do lado de fora, parados ao frio com os pés assentes na gravilha do mundo real. Porque o mundo e a vida não são uma Feira Popular, e aquilo que nos alimenta enquanto cidadãos de sociedades que se querem igualitárias não pode ser simples algodão doce que enche os olhos mas que depois se desfaz na boca.

“O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses”. Palavras de José Saramago, que de tempos a tempos releio e que me fazem sempre tanto sentido. Preocuparmo-nos e empatizarmos com os problemas e situações do outros, principalmente quando são realidades distintas das nossas, é uma maçada. E fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar dos demais, por mais simples que isto seja, não parece nutrir grandes adeptos nos tempos que correm. Talvez seja essa uma das maiores tragédias dos nossos tempos.