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Expresso

Nobel da Paz: que as meninas e mulheres violadas na guerra não sejam esquecidas

Nadia Murad

epa

As violações sexuais enquanto arma de guerra existem há tanto tempo quanto a guerra. Mas invariavelmente ficam de fora das estatísticas, como um mal menor ocorrido dentro das inúmeras atrocidades daquele contexto. Não são. O duplo Nobel da Paz atribuído há dias a uma mulher que foi raptada e escravizada sexualmente por jiadistas, e a um médico do Congo que tem dedicado a sua vida a salvar mulheres vítimas desta barbárie, são um lembrete essencial para esta realidade. E não há países inocentes nisto, os supostos “bons da fita” também o fazem.

Acredito que já tenham ouvido estes nomes: Denis Mukwege é um ginecologista da República Democrática do Congo que fundou uma clínica que já deu tratamento a mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual. Muitas delas foram violadas em grupo por soldados e chegam à clínica de Mukwege com os aparelhos sexuais totalmente destruídos. Meninas incluídas. O médico tem sido uma peça fundamental não só no tratamento dos corpos, mentes e vidas feridas destas meninas e mulheres, mas também na denúncia destes casos. As suas críticas públicas à falta de ação do governo e autoridades congolesas para travar e punir estes crimes de guerra tornaram-se tão mediáticas quanto inconvenientes e, sem surpresas, a sua família tem sido constantemente alvo de ameaças de morte. Mas o médico não cruza os braços e mantém-se firme na sua árdua tarefa de captar atenção internacional para esta forma de terror.

Com uma história totalmente diferente, Nadia Murad é um dos rostos do ativismo contra as violações sexuais em contexto de guerra. E se há alguém que sabe o que isto significa, é ela: foi raptada por militares do Daesh e mantida em cativeiro durante três meses, período em que foi violentada das mais variadas formas.

Nadia faz parte das milhares de mulheres e meninas yazidi vendidas e trocadas em mercado de escravas sexuais, para depois serem brutalizadas às mãos daqueles soldados. Totalmente desumanizadas no processo, o rapto e a agressão sexual contínua sobre elas faz parte de uma estratégia militar para acabar com esta minoria religiosa. Nadia conseguiu fugir e a sua história de horror chocou um mundo ainda incrédulo quanto a este tipo de atrocidades.

Por acontecer durante a guerra não é menos grave

A realidade, é que o mesmo mundo que se mostra incrédulo devia ter a capacidade de olhar para trás e recordar que esta é uma realidade antiga, e que acontece a cada novo conflito, acabando sempre por ser desvalorizada em jeito de mal menor. As violações em massa, o abuso de poder e a exploração sexual em contexto de guerra não são novidade na história mundial. E nem precisamos de ir muito atrás, basta olharmos para o último século para concluirmos quão sistemática é esta forma de violência: por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial os soldados japoneses raptavam mulheres e meninas sul-coreanas e punham-nas em bordéis para que os soldados pudessem “aliviar a tensão”. Violadas dezenas de vezes por dia, eram as chamadas mulheres de conforto e só em 2015 viram ser feita justiça. Na mesma época, os russos fizeram o mesmo às alemãs, por exemplo, e os alemães fizeram-no às russas, às polacas e por aí fora. Os soldados norte-americanos fizeram o mesmo a milhares de meninas e mulheres vietnamitas durante a Guerra no Vietname. Já durante a Guerra na Bósnia, os soldados sérvios tinham verdadeiros campos de violações. Nos últimos anos, o Boko Haram tem raptado milhares de nigerianas para se tornarem ‘esposas’ forçadas dos seus soldados. Também não assim há tanto tempo foram revelados os crimes sexuais cometidos por soldados e funcionários da ONU em África, caso dos soldados franceses que trocavam biscoitos e águas por sexo oral com crianças. Até os supostos ‘bons da fita’ o fazem. E esta lista podia continuar durante vários parágrafos.

Uma violação sexual ocorrida em contexto de guerra não pode ser vista “apenas” como uma violação. Por mais atroz que seja a restante carnificina e violação de direitos humanos ocorridos no mesmo conflito, nada legitima a sua desvalorização. São crimes de guerra, usados de forma estratégica e precisam de ser travados e punidos. Que trazem consequências irreversíveis à vida de quem é atacado. E serem comuns não os pode diminuir na sua gravidade, bem pelo contrário. Num mundo que atualmente se parece desdobrar em esforços para culpabilizar as vítimas de violação e menosprezar o peso dos crimes sexuais – é verdadeiramente inenarrável o que tenho lido nos últimos dias – esta é apenas mais uma peça deste complexo puzzle. Um puzzle global, que tem por base uma cultura enraizada repleta de estereótipos e que de certa forma dá colo e benevolência às mais variadas formas de abuso de poder.

Como diria a presidente do comité do Nobel, “homens e mulheres, oficiais e soldados, autoridades locais, nacionais e internacionais, todos partilham a responsabilidade de denunciar e combater este tipo de crime”. A atribuição deste prémio serve para relembrar ao mundo que temos um problema com vários tentáculos entre mãos: não só este crime de guerra existe em praticamente todos os contextos bélicos, independentemente dos países envolvidos, como é também inadmissível que se continue a falhar na defesa destas vítimas. Infelizmente, são muitas, mesmo muitas.