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Donald Trump Jr. não é o único a pensar assim

Na sequência do caso Kavanaugh, Donald Trump Jr veio dizer publicamente que teme mais pelo futuro dos filhos do que das filhas. Palavras que são um simples reflexo de um problema de fundo, e de enormes proporções: o facto de tanta gente continuar a partir do principio de que a as vítimas de assédio e abuso sexual não são dignas de confiança. E que quando denunciam, o mais certo é estarem a mentir.

Donald Trump Jr diz-se “assustado” com o que se está a passar e que enquanto pai de rapazes e raparigas, é pelo futuro deles que mais teme. Basicamente, porque acha incompreensível que “trinta anos depois se possa trazer a público uma situação acontecida na universidade, que já ninguém recorda mais, mas que pode desqualificar alguém para o resto da vida”. Há muito de errado neste raciocínio, mas infelizmente é uma linha de pensamento bastante comum e que nos pode também a ajudar a perceber porque é que tantas vítimas demoram tanto tempo a denunciar este tipo de agressões.

Por um lado desvaloriza-se o crime, como se o facto de este ter acontecido há muito tempo o tornasse menos grave. Não torna. Ou se o facto de ter acontecido no início da vida adulta seja um género de atenuante. Não é. Por outro, é parte integrante da forma sistemática com que se menospreza a dimensão e a constância do problema. Um problema grave, mas que está banalizado como se fosse algo menor por ser tão recorrente. Não devia ser precisamente ao contrário? Esta banalização não só lhe retira parte do cariz de elevada gravidade, mas também esbate as camadas traumáticas e respetivas repercussões que estas agressões provocam na vida de quem é agredido. Se Donald Trump Jr. tivesse sido violado por duas pessoas durante a faculdade, certamente saberia que isto é uma recordação que não se apaga com o tempo.

A isto soma-se a desconfiança e o menosprezo históricos pelas vítimas deste tipo de agressão. Continuamos amiúde a partir do princípio de que quem denuncia estes abusos, que em tantos caso prejudicaram irreversivelmente várias dimensões das suas vidas, está a mentir ou a exagerar no relato dos factos. Que se tratam de tentativas de obter cinco minutos de fama e dinheiro fácil, ou, quiçá, de simples vinganças pessoais. Já o facto de terem guardado em silêncio um episódio traumático torna-as menos vítimas do mesmo. Ou até mesmo responsáveis pela agressão.

Quem cala não consente

O que poucos parecem querer perceber é que quem cala não consente, nem tampouco o faz porque tem dúvidas quanto ao que aconteceu. Cala-se porque historicamente a justiça e a sociedade em geral não está do seu lado neste tipo de situações. Porque as vítimas continuam a estar desprotegidas e a serem descredibilizadas e culpabilizadas pelas agressões de que são alvo. Porque continuamos a ter juízes que perguntam em tribunal se vítima fechou veementemente as pernas, por exemplo. E que reduzem penas porque a vítimas tinha dançado em clima de sedução para o agressor antes da violação. As vítimas continuam a calar-se porque no jogo de poder implícito nos casos de assédio e abuso sexual, a vítima é sempre o elo mais fraco. Tanto durante o ato, como depois. E ambos sabem disso, o agressor e quem é agredido.

Ao reduzirmos estas denúncias a simples vinganças maldosas e potencialmente mentirosas, esquecemo-nos que estas pessoas que acabam por ter de reviver um trauma quando o denunciam - como Christine Balsey Ford acabou praticamente por ser forçada a fazer - têm pouco ou nada a ganhar em termos materiais. São certamente muito poucos o que o fazem por impulso, aliás, estas são decisões com anos de reflexão e de gestão de sofrimento por trás. Tampouco é uma questão de dinheiro ou de protagonismo, essa é uma análise simplista e preguiçosa quando se fala de denúncia de abusos sexuais. Olhemos para Ford que, por ter ousado denunciar este caso, tem sido alvo de ameaças de morte, já teve de mudar de casa e vê diariamente a sua família a sofrer bullying e riscos que nunca estariam a acontecer caso ela não tivesse revelado o que aconteceu e com quem aconteceu. Isto acontece a uma mulher com algum poder e que tem do seu lado o mediatismo da situação, agora imaginem o clima de coação e medo que tantas vítimas anónimas enfrentam. Não há grandes vantagens nisto, apenas violência psicológica acrescida e um rol de problemas associados, cujo impacto poucos de nós poderão perceber.

O que ganham as vítimas com a denúncia?

Então o que é que Ford e demais vítimas que optam por denunciar ganham com isto? A noção de que estão a lutar pela sua dignidade e integridade, parece-me óbvio. Além de ser uma questão de justiça e de possível paz para os seus demónios pessoais. E de saberem que estão a fazer o correto, e que isso, por mais doloroso que seja, é essencial para que a justiça possa um dia funcionar melhor quando outras vítimas passarem pelo mesmo. Porque vão passar. Não é ao acaso que no último ano tantas novas denúncias forma feitas, coragem gera coragem. E quantas mais vozes forem ouvidas e levadas a sério, mais a sociedade será forçada a mudar o paradigma sexista que serve de ponto de partida para abordagem destes casos, tanto na agressão, como na educação que pode ajudar a evitar estas situações e também na justiça que tarda a acontecer.

Donald Trump Jr. está preocupado com o futuro dos seus filhos, temendo que estes possam ser falsamente acusados um dia. Eu diria que talvez fosse mais urgente preocupar-se com o presente, principalmente no que toca a educá-los para a importância do respeito, da dignidade e da liberdade individual na interação com o próximo. Incluindo a de cariz sexual. Esperemos que seja bem sucedido nesta tarefa.