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Expresso

Brasil: mais uma vez se provou que o feminismo é para todos

reuters

Fica para a história o protesto de sábado, que juntou pessoas de 114 cidades em 10 estados do Brasil, e ao qual se juntaram mais de dez outros países. Foi a maior manifestação feminina de que há memória no Brasil, mas a luta que chegou à rua não foi apenas sobre e pelas mulheres, por mais que tenham sido elas as impulsionadoras: foi um protesto conjunto sobre democracia, igualdade e direitos humanos, e foi bonito de ser ver. Agora é preciso o mesmo movimento coletivo na ida às urnas.

As últimas sondagens, de dia 28, voltaram a mostrar a liderança de Jair Bolsonaro nas intenções de voto dos brasileiros. Contudo, as mulheres continuam a ser a pedra no sapato deste candidato. Enquanto que “o Coiso” conta com 37% de intenção de voto do eleitorado masculino, no que toca às mulheres a percentagem é de 21%. Haddad conta com 22%. Mais de metade continuam indecisas, mas 52% são peremptórias a responder que nunca, jamais, votariam em Bolsonaro. E foram precisamente elas que se uniram de forma espontânea através das redes sociais, e que mesmo sofrendo ameaças conseguiram fazer acontecer o protesto histórico deste fim de semana.

A atual situação do Brasil não é simples, escusado será dizer. Mas uma coisa é não querer o PT a liderar o país. Outra é achar que mais vale o fascismo ao PT. É fácil entender que o atual estado de convulsão social do Brasil leva ao desespero de muitos e que são precisas medidas fortes que ajudem a travar a onda de corrupção, violência, insegurança e degradação social e económica. Mas não é certamente com um Governo que ameaça a democracia que essa mudança acontecerá. Não é com um Governo que despreza a própria Constituição, que apela ao poder militar e que se mostra disposto a violar direitos humanos, que um país pode realmente evoluir. O preço a pagar em capital humano é demasiado elevado, e não há dinheiro que algum dia possa pagar isto.

As ameaças à igualdade não podem ser toleradas

É verdade que tal como aconteceu tanto após a eleição de Donald Trump como a par do movimento #MeToo, voltamos a ver que a força feminina – silenciada durante séculos - está a crescer. Que os frutos dessa força, principalmente em união, podem ter o condão de abanar privilégios instituídos e de, passo a passo, gerar movimentos de mudança. Mas este sábado também ficou provado que o feminismo não é de todo um movimento meramente académico, nem tampouco de franjas radicais. Estes protestos não foram apenas das mulheres, foram do povo em geral, daqueles que compreendem a importância dos direitos humanos. Mais uma vez se mostrou que o feminismo é um movimento ideológico de todas e de todos, mulheres e homens, novos e velhos, pobres e ricos, académicos e iletrados, à direita e à esquerda, negros e brancos, heteros e LGBT, etc. De pessoas que defendem que a igualdade é para todos. E que percebem que uma ameaça a esse princípio básico não pode ser aceite, que é preciso repudiá-la coletivamente, independentemente das diferenças que nos possam separar.

Agora é importante não esquecer que continuamos a ter 28% de brasileiros dispostos a votar em Bolsonaro. E que tal como a resistência coletiva conseguiu galgar das redes sociais para as ruas, agora é essencial que também chegue no dia de ir a votos. Tal como já tinha escrito por aqui, se os que estão toldados pelo síndrome do grande pai que vem salvar a pátria não o conseguem fazer, é urgente que o eleitorado indeciso tenha noção da importância do seu voto. Nenhum Presidente que ostraciza parte da sua população a tratará de forma igualitária, a protegerá e a defenderá como um todo num processo de reabilitação social e económica como o que o Brasil necessita.

O que se avista é uma liderança fascista que incita ao ódio contra todos os grupos minoritários, como a população negra, as pessoas LGBTI e as mulheres, principalmente as de camadas sociais mais pobres. Um governo que tudo fará para alimentar teias de influências, deixando os ricos cada vez mais ricos e privilegiados, e os pobres cada vez mais pobres e desprotegidos. Quanto à liberdade no seu sentido mais lato, essa poderá estar ameaçada para todos os cidadãos. Não chega protestar nas redes sociais e nas ruas, é preciso ir votar. Com consciência de que o voto em branco não é solução.

Esperemos que no dia da ida às urnas também se consiga fazer história. E que no final essa história não seja de terror.