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Expresso

Nada temam, ninguém quer matar a pornografia

“E tu, como é que aprendeste a foder?” A pergunta é provocatória e sem papas na língua. Foi feita pela última campanha do Salão Erótico de Barcelona, que lançou uma discussão acesa em torno de dois tópicos distintos, mas que inequivocamente se cruzam: o machismo na pornografia e a importância da educação sexual em casa, nas escolas e na sociedade e geral. O vídeo é absolutamente incrível.

Já em 2015 e 2016, o Salão Erótico de Barcelona lançou campanhas em vídeo verdadeiramente polémicas, que criticavam duramente a hipocrisia da sociedade espanhola no que toca à sexualidade e à moral e aos bons costumes (no fim do texto podem vê-los, também valem muito a pena). Agora, poucos meses depois do aberrante caso La Manada - que trouxe a público a discussão em torno da violência sexual e a fragilidade do sistema judicial espanhol nestes casos – o evento volta a pôr o dedo numa ferida que tende a deixar imensa gente desconfortável. Simbolicamente, o caso da violação em grupo que chocou o país serve de âncora ao vídeo.

O vídeo tem dado que falar, e há quem alegue que se trata de uma ameaça à liberdade da produção e do consumo de pornografia. Mas isso não podia estar mais errado. A verdade é que esta campanha, feita precisamente por profissionais da indústria, mostra abertamente quão machista é boa parte da pornografia feita nas últimas décadas. Nem há grande discussão possível sobre isto: a larguíssima maioria dos filmes pornográficos estão carregados de estereótipos de género e tanto as narrativas, como a escolha de atores e atrizes, as posições sexuais escolhidas e o tipo de realização feita nos filmes, por exemplo, têm com ponto de partida pressupostos sexistas. Aliás, durante décadas esta indústria teve no sexo masculino, principalmente o heterossexual, o seu público alvo. O que muitos se parecem esquecer é que também as mulheres consumiram e consomem os mesmo filmes e absorvem aquela mesma informação. E foi através desses mesmos filmes, carregados de estereótipos e vivências pouco realistas da sexualidade, que muitos de nós, homens e mulheres, fomos introduzidos à interação sexual durante a puberdade.

É verdade que na última década muito tem vindo a mudar nesta indústria, que finalmente percebeu que o sexo feminino não só também quer, como gosta de pornografia. E surgiram novas formas de realizar filmes e construir narrativas, tanto pornográficas como eróticas. Não é ao acaso que a realizadora Erika Lust conquistou uma legião de fãs em poucos anos e se tornou num nome famoso e multipremiado com a realização de filmes para adultos pensados para um público alvo feminino (não quer dizer que as mulheres não se podem entusiasmar com as antigas narrativas, entenda-se, haja liberdade). Mas não basta que a indústria mude, é preciso que a sociedade acompanhe este movimento. É essencial que a educação sexual exista, mas que não se resuma às questões da reprodução, dos aparelhos sexuais ou das DST.

É preciso começarmos a falar abertamente sobre a sexualidade no seu todo, incluindo o prazer, o erotismo, a fantasia, mas também sobre o respeito pelo próximo e a liberdade individual. Todos eles temas fulcrais na desconstrução de estereótipos associados à sexualidade na sua amplitude. Basta pensarmos na quantidade de mulheres que continuam a sentir-se reprimidas, totalmente presas ao que é certo ou errado uma “mulher como deve ser” fazer. Digamos que há atos e fantasias que continuam no domínio do incorreto para determinado “tipo de mulher” e “tipo de relação”. Já os homens continuam imensamente preocupados com o tamanho do pénis e com a performance, como se a sua validação enquanto ser sexual passasse obrigatoriamente por metas relacionadas com estes dois fatores. Já o espaço para os afetos, esse ainda é sobejamente visto com algum desdém, como se fosse uma afronta à masculinidade quando se trata de sexo. São apenas dois exemplos, há muitos mais, e todos eles condicionam a forma como construímos e desfrutamos das nossas vidas sexuais.

Campanha de 2015

Peguemos numa narrativa bastante comum dos filmes porno da última década: um homem tenta seduzir uma mulher, que recusa os avanços e se “faz de difícil”. Ele insiste porque “já se sabe que as mulheres nunca dizem que não à primeira”, mas na “realidade até querem”. A insistência conduz ao ato sexual e ele acaba por a comer (é o termo mais apropriado) à bruta, com parco ou inexistentes preliminares antes da penetração, sem afetos envolvidos (óbvio), e invariavelmente com ele a dominar o ato do início ao fim. Pelo meio é capaz de se juntar um amigo, e comem-na os dois ao mesmo tempo. Ela tem um orgasmo gigante no fim, claro. Da estimulação do clítoris é ela que geralmente trata. E escusado será dizer que eles têm pénis enormes e durações de performances em penetração dignas de jogos olímpicos. É assim a vida sexual e erótica da maioria da população mundial? Nem por isso. Como diria esta campanha, “numa sociedade sem educação sexual, a pornografia, o porno é o teu livro de instruções”. E para muitos miúdos e miúdas em plena fase de iniciação sexual é esta a lição de realidade que levam consigo. Percebem as várias mensagens subliminares implícitas?

O que esta campanha nos tenta dizer é precisamente que, tal como desde pequenos somos ensinados sobre o certo e errado quanto ao que nos rodeia, e temos ferramentas para entender que, por exemplo, um filme de gangsters ou de guerra nos mostra personagens em performances que não são corretas ou realistas, também é preciso criarmos essa ferramenta para entendermos o que é do domínio da ficção e da fantasia – e na fantasia sexual não existem limites, escusado será dizer – e o que é ou não viável e aceitável quando se passa para a vida real. Não é dizermos que os filmes pornográficos têm de acabar ou que estas narrativas têm de deixar de existir. Era o que mais faltava, longa vida às mais variadas formas de pornografia e à possibilidade de desfrutarmos dela e das inúmeras fantasias que ela nos proporciona. É simplesmente percebermos que sem educação por trás que nos ensine a interpretar o domínio da ficção, muito provavelmente aqueles determinados comportamentos e estereótipos serão entendidos como realidade a seguir. E isso tem consequências maiores que não se resumem apenas ao sexo.

Não é fácil falar sobre isto com crianças e pré-adolescentes? Provavelmente não, porque também não fomos ensinados nesse sentido. Mas há ferramentas que nos podem ajudar a não deixar esta tarefa como responsabilidade exclusiva das escolas, que não é. Um bom ponto de partida pode ser o recém-lançado livro da sexóloga Vânia Beliz, intitulado “Chamar As Coisas Pelos Nomes – Como e Quando Falar de Sexualidade”. A criançada pode um dia agradecer-vos o facto de terem contribuído para uma vida – incluindo a dimensão sexual - mais equilibrada, realista e satisfatória.

Campanha de 2016