Siga-nos

Perfil

Expresso

Porque é que levar um bebé para a ONU fez sentido? Simples

Jacinda Ardern surgiu ontem na Assembleia Geral da ONU com a sua bebé de três meses. Foi a primeira líder mundial a fazê-lo, e rapidamente surgiram críticas pelo suposto ”comportamento inapropriado”. Mas será este gesto um mau exemplo ou, pelo contrário, um exemplo simbólico com o condão de agitar consciências para a relevância da conciliação entre carreira e vida profissional?

A Assembleia Geral da ONU é o melhor do sítios para uma criança de três meses? Bom, do ponto de vista do conforto da mesma, desde que ela tenha a proteção e afeto dos pais, aliado às mamas da mãe para poder comer a horas (já que está a ser amamentada), e conforto para dormir quando necessita, não vejo qualquer mal. Seria melhor estar em casa? Provavelmente, até por uma questão de conforto de flexibilidade de todos os envolvidos. E idealmente estaria acompanhada pelos dois os progenitores durante estes primeiros meses de vida, ambos figuras cruciais para o seu desenvolvimento e bem-estar.

Contudo, e parece-me também ser esta parte da mensagem que a primeira-ministra neozelandesa quis passar, o mundo em que vivemos ainda não se coaduna com situações ideais. Raros são os pais que conseguem resolver esta equação sem passar pelas angústias de ter de deixar qualquer coisa pelo caminho: a maioria das mulheres vê a sua carreira penalizada, a maioria dos homens continua a ser penalizado na forma como pode desfrutar da parentalidade. Ninguém sai a ganhar nisto, e os sentimentos de culpa nestas diferentes dimensões da vida estão muitas vezes presentes. E assim vai ser enquanto não mudarmos o “mindset” que nos traz até a um mundo supostamente civilizado, mas onde a parentalidade continua a ser vista como um extra inconveniente, e não como uma parte integrante, normal e deveras importante de um pacote maior que nos permite – e permitirá - avançar enquanto humanidade.

Jacinda é uma privilegiada? É.

Por um lado, Jacinda Ardern não tem tido a vida facilitada. É constantemente levada a ter de provar que está ao nível do seu cargo e de dar satisfações públicas sobre algo que deveria ser não só um assunto do foro privado, como algo normal e viável na vida de qualquer pessoa adulta que nutra este desejo. Por outro, Jacinda sabe que no meio de toda esta confusão, escrutínio e provação constantes é uma privilegiada. E que conseguiu reunir condições ímpares para tornar viável esta conciliação da vida familiar e profissional, com um cargo de liderança, algo que tantas pessoas mundo fora – principalmente as mulheres – não estão em posição de fazer. Esta mulher pode fazê-lo porque está numa situação financeira confortável e porque tem uma rede de suporte alargada ao seu dispor. Infelizmente, não é assim para o comum dos mortais. Conseguir que isto mude tem sido uma das metas da sua carreira política.

Trazer o seu bebé para uma Assembleia Geral da ONU é precisamente um ato simbólico que serve para lembrar ao mundo que ainda há muito para ser feito no sentido de que nenhuma mulher ou homem seja considerado melhor ou pior profissional porque decidiu constituir família. Pretende normalizar a ideia da compatibilidade da parentalidade com a carreira, mas ao mesmo tempo questionar a forma como as empresas e demais instituições estão organizadas ao nível operacional e das suas estruturas.

Acompanhada pelo namorado - que que tirou uma licença prolongada para cuidar da bebé durante o primeiro ano - serve para relembrar que também os homens têm direito a desfrutar das licenças parentais alargadas no lugar habitual das mães, sem serem penalizados por isso. Nem profissionalmente, nem na sua masculinidade perante a sociedade. E que uma mãe também não é pior mãe porque é a primeira a regressar ao trabalho e a passar mais tempo fora de casa. Todas elas ideias totalmente pré-concebidas que continuam a castrar as nossas opções de vida, como se isto da família fosse um beco sem saída. Não pode, nem deve ser. E é preciso abrirmos portas que sirvam de saída fácil e normalizada para todos os que querem ter filhos.

É possível ser bom profissional e ter uma vida familiar equilibrada

Tal como já uma vez escrevi por aqui, cidadãos com vidas familiares protegidas são cidadãos mais produtivos e motivados. Cidadãos que não têm de sofrer escrutínio, coação e ameaças-veladas das entidades patronais na hora de usufruírem dos seus direitos mais simples são cidadãos mais confiantes, motivados e disponíveis nas suas vidas profissionais. Ter um filho não é uma demonstração de falta de profissionalismo ou, sequer, de produtividade ou disponibilidade para cumprir com as exigências laborais. Se estiverem reunidas condições que respeitem as várias dimensões da vida de cada trabalhador, é possível ser bom profissional e ter uma vida familiar equilibrada.

Há quem chame a este episódio um simples momento de “show off”. Eu diria antes que foi um banho de realidade, com transmissão para o mundo inteiro. Não sejamos ingénuos: se a bebé Neve não tivesse aparecido nesta Assembleia Geral, ninguém estaria hoje a discutir a questão do equilíbrio entre carreira e parentalidade, discussão essa que é urgente. Jacinda Ardern sabia perfeitamente disto e aproveitou a exposição pública para lançar mais uma semente.

Podemos deixar-nos influenciar pela eterna forma penalizadora de encarar a maternidade e dizer que esta é só mais uma gaja que está a mostrar ao mundo que as mulheres com bebés não servem para cargos de liderança? Podemos, é o caminho mais fácil, óbvio e tacanho. Mas também podemos optar por olhar para isto como um incentivo a questionarmos coletivamente se esta compatibilização é ou não possível se forem criadas condições para que a parentalidade não seja o tal beco sem saída.

Eu prefiro optar pela segunda, mesmo sabendo que esta mudança de paradigma não vai ser fácil nem rápida. Mas não é impossível.