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Expresso

As mulheres não são estúpidas nem serão silenciadas, Bolsonaro

As mulheres são uma pedra no sapato de Bolsonaro. E não me estou a referir aos comentários misóginos tecidos sobre a população feminina, mas sim aos 52% de eleitorado do Brasil que é composto por mulheres. Eleitorado esse que tem sido menosprezado pela campanha deste candidato, e que pode ter um papel decisivo no rumo do país. Em resposta a isto, Bolsonaro tenta ora manipular, ora reprimir o sexo feminino, exemplo claro da sua conduta. Não há dúvidas que as mulheres brasileiras têm um enorme poder em mãos. Mas o que farão com ele?

Vamos por partes: as mulheres são mais de metade dos eleitores do Brasil. Dados recentes divulgados pelo Datafolha mostravam que o candidato do PSL conta com o apoio de 35% de homens e de apenas 18% de mulheres. Basicamente, não há memória de um candidato com uma discrepância tão grande entre eleitores homens e mulheres. Mas o dado que mais chama à atenção é o facto de que quase metade das eleitoras continua indecisa quanto ao seu voto, e isto representa uma enormidade de votos. O que poderá acontecer se a maioria destas mulheres decidir votar noutro candidato que não seja Bolsonaro? A resposta é fácil e possível. E poderá salvar o país de um futuro sombrio.

O grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” cresce veloz

A verdade é que Bolsonaro tem feito uma campanha com muito enfoque no eleitorado masculino, deixando de lado temas para os quais as mulheres estão formatadas e/ou são levadas a priorizar pelas condições das suas próprias vidas. Exemplos disso são a educação, a igualdade salarial e o apoio a famílias monoparentais. A somar a isto juntam-se os recorrentes comentários misóginos, ofensivos e discriminatórios que fez ao longo da sua carreira militar e política (já recordaremos alguns mais abaixo). Não é, portanto, de estranhar que sejam agora tantas as mulheres que não se revêm nas promessas eleitorais deste candidato e que surjam movimentos como o grupo de Facebook que tanto deu que falar nos últimos dias, intitulado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”.

Este grupo, espontâneo e apartidário, surge para juntar cidadãs que queiram lutar contra “o machismo, a misoginia e outros tipos de preconceitos representados pelo candidato Jair Bolsonaro e seus eleitores”. E foram quase dois milhões de mulheres que se juntaram a ele em poucos dias, partilhando histórias e angústias, questionando programas eleitorais, tirando dúvidas às demais e planeando medidas de manifestação pública contra o posicionamento de Bolsonaro, um direito que lhes é garantido pela constituição, já agora. Se inicialmente o grupo foi descredibilizado, o volume massivo de novos membros começou a gerar desconforto. E eis que surgiram medidas imediatas – e ilegais - do outro lado para travar o mulherio.

Por um lado, as administradoras do grupo viram as suas contas privadas de Facebook e Whatsapp invadidas e foram intimidadas com ameaças pessoais e familiares. Depois o grupo foi pirateado, tendo o nome sido alterado para “Mulheres Com Bolsonaro”.

Curiosamente, ou não, no Twitter da campanha do candidato surgiu um irónico agradecimento público ao apoio feminino dessa mesma página quando esta estava sob domínio de hackers. Será que foi coincidência? Não sejamos ingénuos. E não menosprezemos o ataque à liberdade de expressão que isto representou, uma vez que houve a tentativa de silenciamento de milhões de mulheres daquele grupo. Isto é grave, muito grave.

Bolsonaro tenta estupidificar as mulheres pela via das lágrimas

Por outro lado, é lançado um vídeo de Bolsonaro com lágrimas nos olhos a falar da sua única filha, enaltecendo a importância da instituição família e do que sente por ser pai babado de uma menina. Não esquecer que em relação ao elemento mais novo da sua prole, Bolsonaro afirmou em tempos que “fraquejou” ao quinto filho e foi por isso que ela nasceu mulher. O recurso às lágrimas e à parentalidade como último reduto de conquista do eleitorado feminino é ridículo, condescendente e redutor para todas as mulheres. Muitas delas – olhemos para os números da violência doméstica no Brasil - mulheres violentadas nas suas próprias casas por homens que recorrem precisamente às lágrimas e ao apelo do bem maior dos filhos e da família para chegar ao perdão e perpetuar o ciclo. As mulheres na sua globalidade conhecem de trás para a frente esta forma de chantagem emocional. E, espero eu, não se deixam levar por lágrimas de crocodilo.

É interessante ver este movimento coletivo de mulheres que se indignam e que se unem para tentar travar a desgraça. E que mesmo sendo alvo de ameaças e ataques não cruzam os braços, pelo contrário, ganham força. O tiro saiu pela culatra. Agora é importante é que essa força galgue o mundo virtual e que se reflita no mundo real nas marchas que estão programas para dia 29 em diferentes pontos do Brasil, e também em Portugal. Se os que estão toldados pelo síndrome do grande pai que vem salvar a pátria não o conseguem fazer, é urgente que este eleitorado indeciso pare para refletir e tomar consciência da importância do seu voto. Que se lembre do passado recente do país e que não permita que os erros se repitam. Nenhum Presidente que ostraciza parte da sua população a tratará de forma igualitária, a protegerá e a defenderá como um todo num processo de reabilitação social e económica como o que o Brasil necessita.

Relembrar algumas frases de Bolsonaro

Tenham em conta, por exemplo, que estamos perante um candidato presidencial que ao ser questionado sobre a hipótese de um dos seus filhos se apaixonar por uma mulher negra, dá como resposta que “não vai discutir promiscuidade”, até porque os seus filhos foram “bem-educados” e não se meteriam nisso. Um homem que quando questionado sobre a igualdade salarial entre géneros no sector privado, onde o Estado mais dificilmente poderá intervir, responde “eu não empregaria com o mesmo salário”. E que sobre a paridade na formação de um possível futuro Governo, alega que “Não é questão de género, tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres vou ter que indicar quantos afrodescendentes.”

No que toca aos diretos LGBTI, também vale a pena relembrar a frase: “Não vou combater nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”. A tradição e os supostos bons costumes acima de tudo, mesmo da dignidade e liberdade de boa parte dos seus cidadãos. Não esquecer também que este candidato presidencial foi multado por chamar “vagabunda” a uma deputada, a quem mais tarde disse “jamais iria estuprar você porque você não merece”. Mas se a conduta de Bolsonaro é má, convém não esquecer que ele se faz acompanhar por figuras como o seu vice Hamilton Mourão, um homem que ainda esta segunda-feira disse que famílias pobres, sem pai e avô presente, chefiadas por mães e avós “são fábricas de desajustados”.

Digamos que num país onde 43% dos lares estão ao encargo exclusivo de mulheres, à conta da irresponsabilidade de homens que fogem aos seus deveres parentais, esta é uma ofensa gravíssima a todas as mães e avós que criam filhos e netos sozinhas.

Diz-nos o seu percurso que Bolsonaro defende a presença militar no Governo e que é a favor da tortura e de execuções sumárias em vez de julgamentos - conseguem perceber onde isto pode levar o país ou já se esqueceram do período da ditadura militar? O que se avista é um futuro vivido a toque de caixa às mãos de um Governo fascista. Uma liderança política que incita ao ódio contra todos os grupos minoritários, como a população negra, as pessoas LGBTI e as mulheres, principalmente as de camadas sociais mais pobres. Fatias da população que já são ostracizadas das mais diferentes formas nos tempos de hoje, mas cujas parcas condições de vida poderão piorar significativamente caso chegue ao poder um governo como este, que tudo fará para alimentar teias de influências, deixando os ricos cada vez mais ricos e privilegiados, e os pobres cada vez mais pobres e desprotegidos. A verdadeira liberdade, essa, poderá estar ameaçada para todos os cidadãos.

Não deixem que vos estupidifiquem com manipulações condescendes, mulheres. E que as vossas vozes não sejam silenciadas pela via da ameaça. O Brasil precisa de vocês, mesmo que boa parte dele pareça não ter real noção disso.